Cabo Verde evoca centenário da geração do movimento Claridade

O centenário do nascimento da geração que fundou em Cabo Verde o movimento literário Claridade é comemorado na Cidade da Praia, de sexta-feira a domingo, num seminário internacional organizado pelo governo.

Agência LUSA /

"A Claridade" foi uma revista literária surgida em 1936 na Cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, e que está no centro de um movimento de emancipação cultural, social e política da sociedade cabo-verdiana cujos responsáveis foram Manuel Lopes, Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa.

Do ponto de vista literário, os estudiosos definem a Claridade como o marco de uma fase de contemporaneidade estética e linguística, superando o conflito entre o Romantismo de matriz portuguesa - dominante durante o século XIX - e o novo Realismo, atento às realidades do quotidiano do povo e procurando reflectir a consciência colectiva cabo-verdiana.

Segundo disse à Lusa o escritor e professor de Literatura Manuel Brito Semedo, houve uma conjuntura, no mundo e em Portugal, que fez com que surgisse o Movimento.

São Vicente era a Ilha mais importante de Cabo Verde, por causa do Porto Grande, onde entravam dois terços do rendimento de todo o território, e numa altura em que se vivia, a nível mundial, uma grande recessão económica, lembrou em entrevista à Lusa.

Para Manuel Brito Semedo, foram essas condições que levaram a que alguns intelectuais, como Baltazar Lopes, Jonas Whanon, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, e outros, começassem a pensar a situação de Cabo Verde.

Quando há uma crise mundial e estando na periferia do mundo, São Vicente sente esta crise. Então o grupo decidiu fundar um jornal para chamar atenção para a situação de fome e miséria que vivia o povo das ilhas. Mas não podendo fazer isso, porque se exigia um depósito de 50 mil escudos, optou por uma revista periódica, que em 24 anos conseguiu produzir nove números, explicou.

Com a influência do Brasil, do Realismo Nordestino, os escritores produziram uma literatura baseada na realidade cabo-verdiana.

Como teorizou o fundador Manuel Lopes, eles fincaram os pés na terra para escrever e pensar aquilo que os pés pisavam.

É uma literatura realista e moderna, que rompe com aquilo que existia na geração anterior. A Claridade de 1936 é um movimento tomado como uma referência porque é uma ruptura, é a modernidade em termos formais e de conteúdo, acrescenta Manuel Brito Semedo.

O professor chama também a atenção para a geração anterior à Claridade, que serviu de base para esta fase regionalista da literatura cabo-verdiana.

O Movimento Claridoso é o grande marco mas temos que ver o equilíbrio da literatura cabo-verdiana. O período anterior é muito importante, depois temos a Claridade que possibilitou o surgimento de um movimento nacionalista a seguir ao regionalismo da Claridade, opinou.

Da geração anterior à Claridade, Brito Semedo destaca Eugénio Tavares e Pedro Cardoso, nomes importantes para a formação da literatura cabo-verdiana.

Na geração de Eugénio Tavares, Pedro Cardoso e José Lopes ainda não havia o realismo em termos da literatura porque se estava a viver a influência da literatura portuguesa, na última fase do romantismo em termos de conteúdo, lembrou Manuel Brito Semedo.

Mas, acrescentou, havia já uma valorização do homem cabo-verdiano e do crioulo, pelo que chama a esse período de "crioulidade", sobretudo com o Pedro Cardoso e Eugénio Tavares.

Sem esta geração, não surgiria a geração regionalista que fundou a Claridade nos anos 30, garantiu o professor.

Com o surgimento do Estado Novo, com a visão de Portugal ser uno de Minho a Timor, surge esta geração de Baltazar, Manuel Lopes e Jorge Barbosa que vem dizer que não, que somos uma região dentro deste mundo que é Portugal, temos uma cultura própria, uma literatura própria e uma língua própria, e Baltazar Lopes caracteriza Cabo Verde nesta visão regionalista, concluiu.

Para a escritora Vera Duarte, também em declarações à Lusa, os "claridosos" conseguiram dar uma dimensão diferente a Cabo Verde, ultrapassando o espaço geográfico reduzido.

"Eu considero que eles reforçaram e deram uma dimensão nova a este sentido de pertença à nação cabo-verdiana no domínio da cultura", afirmou.

É que, defendeu também, até aos "claridosos", a literatura cabo-verdiana oscilava entre a literatura portuguesa em Cabo Verde, ou africana em Cabo Verde, passando-se depois para a posição "nem Europa nem África, simplesmente Cabo Verde".

Em relação a Baltazar Lopes da Silva, de quem foi aluna no Liceu, Vera Duarte destaca obras como "Chiquinho", que marcaram a literatura cabo-verdiana.

"Chiquinho" retrata a vida de um povo, traça o drama da emigração cabo-verdiana. "Mas também há a poesia dele, como por exemplo o poema Ressaca que é um dos poemas mais belos da literatura cabo-verdiana", realçou.

No Seminário Internacional participam personalidades ligadas à cultura provenientes de Portugal (Pires Laranjeira, Elsa Rodrigues dos Santos, Luís Silva, Alberto Carvalho, Ana Mafalda Leite) do Brasil (Simone Caputo Gomes) e de Cabo Verde.


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