Câmara da Covilhã desconhece processo de venda da Torá com mais de 400 anos

A Câmara da Covilhã afirmou hoje não tem qualquer conhecimento oficial da venda da Torá (documento judaico) com mais de 400 anos, cuja descoberta foi recentemente anunciada e que, entretanto, um empresário da cidade disse ter adquirido.

Lusa /

"Foi com surpresa que fui confrontado com algumas notícias que davam conta de uma suposta venda do documento a um empresário. Reafirmo que até esta data não deu entrada nenhum documento da parte do achador ou seu representante legal referente à venda do documento que aquele achou e posteriormente entregou à guarda desta Câmara Municipal para fins de estudo e avaliação da sua importância histórica", refere o presidente da Câmara Municipal, Vítor Pereira em resposta escrita enviada à agência Lusa.

A Câmara da Covilhã anunciou a 14 de setembro que tinha sido descoberta naquela cidade uma Torá com mais de 400 anos, em muito bom estado de conservação.

O documento foi encontrado há cerca de 10 anos, durante a demolição de um edifício no centro da cidade, mas, na altura, o empreiteiro não terá tido consciência da importância do achado, limitando-se a guardá-lo.

Ao tomarem conhecimento deste episódio, os técnicos do departamento da Cultura da Câmara foram analisar o achado, tendo encontrado um pergaminho com 30 metros de comprimento e 60 centímetros de altura, provavelmente escrito com tinta ferrogálica e com suporte de apoio em rolos de madeira.

Na altura em que a descoberta foi divulgada, o município covilhanense especificou que a autenticidade e datação da Torá entre o século XVI e XVII foram apontadas por Javier Castaño, professor e investigador no departamento de Estudos Judaicos do Instituto de Línguas e Culturas do Mediterrâneo e Oriente Próximo.

O município também explicou que já tinha realizado um protocolo com o empreiteiro no sentido de que fosse a autarquia a guardar e a conservar a Torá, sendo que a posse continuaria a ser de quem o encontrou.

Entretanto, na quinta-feira, um empresário daquela cidade disse, em declarações à agência Lusa, que tinha adquirido o referido documento judaico, adiantando que escritura foi realizada na quarta-feira.

José Manuel Correia explicou que adquiriu a Torá por ser apreciador de antiguidades, tendo rejeitado revelar o valor da transação e limitando-se a explicar que o seu objetivo é de que esta Torá permaneça na Covilhã.

Contactado pela agência Lusa, Vítor Pereira começou por explicar que a "suposta venda" não foi comunicada ao município, que está "desde a primeira hora a honrar o seu compromisso com o achador, nomeadamente ao nível das diligências para avaliação e estudo científico do mesmo bem como da sua divulgação".

O autarca também lembrou que as entidades competentes foram informadas deste achado e que o município tomou "pertinentes diligências junto da comunidade científica portuguesa e internacional para procurar avaliar e estudar o documento".

Sublinhando que "a principal preocupação" se prende com a avaliação, estudo e preservação do documento na sua vertente histórica, cultural, religiosa e patrimonial, o autarca classifica como "secundária" a questão da propriedade, mas não deixa de ressalvar a possibilidade de a própria autarquia poder vir a adquirir esta Torá.

"Apesar disso, tendo em conta o potencial valor imaterial e histórico para a comunidade covilhanense e até nacional, naturalmente que o Município da Covilhã estará interessado que o mesmo seja preservado e disponibilizado publicamente como um importante elemento histórico da nossa comunidade e considera, naturalmente, poder vir a adquirir a sua propriedade", conclui.

 

 

Tópicos
PUB