Carlos do Carmo afirma "estranhar" atitude de Vítor Duarte Marceneiro

Lisboa, 10 Fev (Lusa) - O fadista Carlos do Carmo afirmou hoje à Lusa "estranhar a atitude" do neto de Alfredo Marceneiro, Vítor Duarte, que reclama os direitos de autor do "Fado da Saudade", distinguido com um Prémio Goya.

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"Estranho esta atitude de uma pessoa que conheço há muitos anos e que podia consultar-me directamente e discutir a questão da autoria comigo", disse o fadista.

Carlos do Carmo assinala que a música para a qual Fernando Pinto do Amaral escreveu um fado em versículo "surgiu a pedido de Carlos Saura [realizador do filme] que pretendia dar um olhar sobre o fado".

Segundo o fadista, com 45 anos de carreira, e que conviveu com Alfredo Marceneiro, "o fado menor em versículo pode ter vários direitos autorais de vários estilos, consoante quem o canta".

"Haverá - prosseguiu - um fado menor em versículo de Marceneiro como um fado menor em versículo de Joaquim Campos ou de outros".

"O apêndice musical que é criado à melodia do fado menor é específico de quem o faz, residindo aí a sua criatividade, sem prejuízo de Alfredo Marceneiro ter feito a sua autoria", argumentou.

"Como admirador profundo de Alfredo Marceneiro nunca iria omitir a sua autoria", sublinhou o fadista, que se empenhou na concretização do filme.

Carlos do Carmo editou recentemente um álbum que inclui quatro fados da autoria de Alfredo Marceneiro.

"Nunca reclamei a autoria, é um fado menor em versículo que é uma forma musical de que o povo se apropriou, e a que cada um dá o seu estilo", frisou.

O "Fado da saudade", com letra de Pinto do Amaral, abre o filme "Fados", de Carlos Saura, sendo Carlos do Carmo acompanhado à guitarra por José Manuel Neto, à viola por Carlos Manuel Proença e à viola-baixo por Marino de Freitas.

Carlos do Carmo afirmou que esta reivindicação não coloca em causa a atribuição do Prémio Goya, recebido no passado dia 03, que foi "um prémio para o fado" e, enfatizou, "o conteúdo poético é completamente novo".

"Foi um prémio para o fado, não o recebi em nome pessoal. Sou incapaz de usurpar quaisquer direitos de autor", asseverou.

O investigador Vítor Duarte, neto de Alfredo Marceneiro, reivindicou hoje para o seu avô a autoria e cobrança dos respectivos direitos do "Fado da saudade" (letra de Fernando Pinto do Amaral), e pôs em causa a distinção do Prémio Goya.

"Os direitos de autor deste tema não foram pagos, a ficha técnica do filme e da banda sonora não dizem que o autor é o meu avô", disse Vítor Duarte Marceneiro.

Segundo Vítor Marceneiro, o "Fado da saudade" é um fado menor em versículo, cuja autoria é de Alfredo Marceneiro, data de 1926 e está registado na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

O fado menor em versículo tem como base um fado menor, que tem mais de cem anos e é de autor desconhecido, argumentou o investigador de fado.

"O fado ["Fado da saudade"] está muito bem cantado no filme, a letra é muito boa, não é isso que está em causa, mas a música não foi composta de propósito para o filme", observou Vítor Marceneiro, que reclama a cobrança de direitos de autor pelo uso da música, tanto na banda sonora como no filme.

O neto de Alfredo Marceneiro informou hoje a SPA e a Academia de Cinema de Espanha, que atribui os Goya, sobre essa omissão da autoria da música de "Fado da saudade".

Com esta acção, Vítor Marceneiro põe também em causa a atribuição do Prémio Goya a este fado como Melhor canção original.

Contactado pela agência Lusa, o produtor de "Fados", Ivan Dias, disse que o "Fado da saudade" "é um fado menor em versículo com arranjos dos músicos que acompanham Carlos do Carmo".

Fonte da administração da SPA afirmou à Lusa que o fado menor com versículo está registado naquela cooperativa.

A mesma fonte acrescentou que qualquer utilização deste fado deve ter autorização da SPA e que a mesma não foi pedida para este fado de Alfredo Marceneiro.

Em declarações à agência Lusa, Julieta Estrela de Castro, da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, referiu que "o fado menor cantado em versículo é um estilo de música que é cantado por muitas pessoas, mas o Alfredo Marceneiro musicou-o daquela maneira".

"Digo isto e é a minha opinião pessoal - repisou - : a versão que Carlos do Carmo cantou não é original, já foi muito cantada. A Beatriz da Conceição já cantou, o Chico Madureira também já cantou".

NL/SS.

Lusa/Fim


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