"Carpintaria" da escrita e rigor histórico em novo de Mário Ventura

A história de um livro encerrada no próprio livro e o relato das peripécias do narrador em pleno labor literário dão forma a "O Reino Encantado", romance que Mário Ventura lança a 05 de Abril.

Agência LUSA /

A obra, que será apresentada por Maria Lúcia Lepecki na livraria FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, resulta de um interesse suscitado no escritor por "As Origens do Sebastianismo", um volume de Lúcio de Azevedo.

O livro do historiador conta que, em 1838, em Pedra Bonita, Pernambuco (Brasil), uma horda de fanáticos que esperava a vinda de D.Sebastião procedeu a uma carnificina, acreditando que assim ressuscitaria o rei português e, com ele, os próprios mortos.

"Há mais de 18 anos que carregava comigo a leitura desse relato", afirmou Mário Ventura à agência Lusa, acrescentando ter feito "várias tentativas de investigação" até chegar às conclusões que lhe permitiram compor o romance.

"O livro acaba por ser, também, a história da sua própria elaboração, pois o narrador escreve acerca do trabalho de investigação histórica para confirmar a verdade ou falsidade desse caso com mais de 160 anos e de difícil esclarecimento", explicou o autor.

De acordo com o escritor, "a história sebastianista não é o principal do livro", que tem por intenção mostrar o labor, a carpintaria que se oculta por detrás de uma obra literária.

Nesse sentido, e apesar de se tratar de uma ficção, Mário Ventura reconhece que há uma transposição do autor para o narrador, nomeadamente porque a viagem ao Brasil, atribuída ao segundo, resulta de duas deslocações que o escritor realizou em 2001 e 2002.

Além da narração do processo criativo, "O Reino Encantado" - editado sob a chancela Casa das Letras, antiga Editorial Notícias - é apresentado pelo autor como "uma reflexão acerca do passado e da História, que é tantas vezes adulterada, reescrita, reinterpretada".

No romance, essa reflexão é suscitada pelo facto de o mesmo episódio sebastianista ser contado duas vezes e de duas formas distintas, "uma em função de um primeiro material de que o narrador dispõe e outra resultante da sua viagem ao Brasil, uma espécie de `versão corrigida`", explicou Mário Ventura.

O escritor revelou ainda à Lusa que, "em Maio, por ocasião da Feira do Livro", será lançada uma nova edição de "Vida e Morte dos Santiagos", 20 anos após o original conquistar os prémios Ficção do Pen Clube e Município de Lisboa.

Jornalista e escritor, Mário Ventura Henriques nasceu em Lisboa, em 1939 e, após a estreia com "A Noite da Vergonha" (1963), escreveu "à Sombra das Árvores Mortas" (1966), dando novo contributo para uma obra que actualmente soma cerca de dezena e meia de títulos em vários estilos, do romance ao conto, do memorialismo à narrativa.

O ano de 1968 assistiu à edição de "O Despojo dos Insensatos", após o que Mário Ventura reuniu em dois livros narrativas sobre várias regiões do país: "Alentejo Desencantado" (1969) e "Morrer em Portugal" (1976).

Regressando ao romance em 1979, com "Outro Tempo Outra Cidade", o jornalista e escritor deu à estampa, seis anos depois, em 1985, "Vida e Morte dos Santiagos", obra muito aplaudida pela crítica.

Em 1986 nasceu a colectânea de diálogos com escritores "Conversas", enquanto "Março Desavindo", sobre um episódio ocorrido num momento acesso da revolução portuguesa, apareceu em 1987, surgindo "Évora e os Dias da Guerra", título que arrebatou novo prémio do Pen Clube, em 1992.

Mário Ventura cobriu em 1997, com "A Revolta dos Herdeiros", três décadas da realidade portuguesa, antes e depois do 25 de Abril.

Em 1999 lançou "O Segredo de Miguel Zuzarte", em 2001 editou o seu primeiro livro de memórias, "Quarto Crescente", e o álbum "Portugal - Geografia do Fatalismo", uma antologia de textos sobre a paisagem humana portuguesa com fotos de João Francisco Vilhena.

Seguiram-se "Atravessando o Deserto" (2002) e, no ano seguinte, uma reedição de "A Noite da Vergonha", para assinalar os 40 anos de vida literária do escritor.

Como jornalista, passou pelo Diário Popular e Diário de Notícias, pertenceu ao conselho de redacção da revista Seara Nova, foi director do semanário Extra e chefiou a agência noticiosa Europa Press.

A partir de 1968 foi correspondente da imprensa espanhola, função que abandonou em meados da década de 90, tendo chegado a dirigir a edição portuguesa da Cambio 16.

Presidente da Associação Portuguesa de Escritores no início da década de noventa, Mário Ventura Henriques é reconhecido também como mentor e director do Festival Internacional de Cinema Festroia.

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