Casamento hebraico recriado em Faro

A recriação de um casamento hebraico típico com peças originais de uma antiga sinagoga de Faro é a principal atracção de um novo espaço hoje inaugurado no interior dos muros do cemitério judaico da cidade.

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O cemitério, único vestígio que permanece da primeira presença judaica em Portugal depois da Inquisição, passa agora a denominar-se Centro Judaico de Faro, integrando um pequeno museu e o espaço hoje aberto ao público.

O conteúdo da antiga sinagoga de Faro, localizada na baixa da cidade e demolida na década de 1960, foi transferido para uma pequena casa de madeira onde a comunidade judaica local decidiu recriar a cerimónia.

O cenário é composto pelo púlpito, arco e lamparina originais da antiga sinagoga, que serviu, entre os séculos XVIII e XIX, a extinta comunidade israelita de Faro, que desapareceu na década de 1940 devido à emigração.

Segundo Ralf Pinto, presidente da Comunidade Judaica do Algarve, restabelecida em conjunto com a mulher em Portimão, em 1991, a ideia é que o centro passe a fazer parte do roteiro cultural da cidade.

Dentro do novo espaço podem ver-se fotografias de casamentos hebraicos e a árvore genealógica de Ralf Pinto, natural da África do Sul e residente no Algarve há muitos anos, que conseguiu retroceder até ao século XVII no registo dos seus antepassados.

Na cerimónia estiveram presentes o embaixador de Israel em Portugal, Aaron Ram, o presidente da Câmara de Faro, o presidente da Comunidade Israelita de Lisboa e os filhos e netos do já falecido Isaac Bitton, responsável pela restauração do cemitério na década de 1980.

O filho, Michael Bitton, residente nos Estados Unidos e actual presidente da Fundação de Restauro do Cemitério de Faro (FRCF), descreveu a sua presença em Portugal como uma grande honra, por ver que tudo aquilo pelo que o seu pai lutou não foi em vão.

"Quando o meu pai veio a Faro à procura da presença de um ancestral nosso, encontrou o cemitério num estado degradante", afirmou, lembrando que esta é a primeira vez que vem ao país desde o falecimento do pai, há um ano.

A mais antiga sepultura existente no cemitério judaico de Faro data de 1838 e pertence a um rabino, enquanto a mais recente, de um total de 107 campas, data de 1932, altura em que a comunidade entrou em decadência.

O antigo cemitério, utilizado durante cerca de cem anos e votado ao abandono durante décadas, foi reconstruído em 1993, altura em que abriu ao público numa cerimónia a

que assistiu o então Presidente da República, Mário Soares.

Hoje o espaço integra um pequeno museu, onde se descreve a história da presença judaica em Portugal e se exibe uma parte do "Pentateuco", primeiro livro impresso em Portugal, por Samuel Gacon, em Faro, e o espaço hoje inaugurado em que é recriado um casamento judeu (chupah).

A comunidade israelita de Faro formou-se no início do século XIX, quando várias famílias judias prosperavam em negócios ligados à comercialização de cortiça e frutos secos.

Até à década de 1930 ainda funcionavam duas sinagogas em Faro - uma terceira foi transformada em lar para pobres -, mas como nenhuma era de raiz, os edifícios onde se encontravam acabaram por ser derrubados para dar lugar a novos prédios.


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