Cascais recorda a II Guerra Mundial
O Espaço Memória dos Exílios, no Estoril, acolhe a exposição "Portugal e Cascais no final da Segunda Guerra Mundial", para assinalar os 60 anos do fim do conflito, num concelho onde milhares de estrangeiros se refugiaram.
"Na exposição, a história nacional e internacional cruza-se com o contexto local", disse à Lusa António Carvalho, director do Departamento de Cultura da autarquia de Cascais.
Através de vários documentos, mostra-se como "a sociedade cosmopolita do Estoril" acolheu refugiados e "os mais importantes espiões do mundo", que beneficiaram da localização geográfica estratégica e da grande capacidade hoteleira.
"Muitas pessoas estavam de passagem para os Estados Unidos, à espera de conseguirem embarcar num avião ou num barco, como foi descrito no filme Casablanca", contou António Carvalho.
O responsável explicou que, ao contrário de outros locais que acolheram refugiados, como as Caldas da Rainha ou a Figueira da Foz, "o Estoril não era uma zona de residência fixa, as pessoas podiam deslocar-se com relativa liberdade, não eram vigiadas".
Cascais e o Estoril foram locais de acolhimento para as grandes vagas de refugiados provenientes da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial e do Pós-Guerra, este último período ficou célebre pelo exílio de "muitas cabeças coroadas europeias".
O director do Departamento de Cultura sublinhou que a exposição explora ainda diversas contradições do papel de Portugal na Segunda Guerra Mundial, começando pela "viragem da posição de Salazar, a partir de 1942".
Esta mudança ficou patente na cedência da Base das Lajes ao Reino Unido e de Santa Maria aos Estados Unidos.
"A cedência das Lajes, feita por períodos curtos, sucessivamente renovados, como se Salazar fosse um senhorio, foi fundamental para a rota de abastecimento das tropas aliadas e para o controle dos comboios de navios que cruzavam o Atlântico e que tinham se ser escoltados por aviões por causa dos submarinos alemães", explicou.
Este gesto de Salazar soma-se à "réplica que os portugueses deram ao Japão em Timor" e faz com que os Aliados desenvolvam uma tolerância para com Portugal que culmina na adesão à NATO.
Segundo António Carvalho, "a exposição explora a contradição de os regimes autoritários serem esmagados com o fim da guerra e Portugal ir sentar-se ao lado dos vencedores como país fundador da NATO".
De acordo com o responsável, a exposição procura também reflectir "o contraste entre a euforia da vitória e as dificuldades que se viveram" e os efeitos do Plano Marshall em Portugal.
São ainda retratados episódios como uma das manifestações espontâneas de júbilo pelo final da guerra, que aconteceu "quando chegou uma esquadra norte-americana a Alcântara e se concentraram tantas pessoas que o cais caiu".
Refugiaram-se em Cascais e no Estoril, além de milhares de anónimos, personalidades como o autor de o "Principezinho", Antoine de Saint Exupéry ou a Grã-Duquesa do Luxemburgo.
Carlota do Luxemburgo chegou com um visto assinado por Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus que passou milhares de vistos a refugiados, nomeadamente judeus, desobedecendo às ordens do Ministério dos Negócios Estrangeiros português.
A Duquesa abrigou-se na residência da família Espírito Santo, antes da partida para o exílio nos Estados Unidos da América.
A exposição estará patente até 26 de Novembro, no Espaço Memória dos Exílios, um local que tem como objectivo evocar o concelho de Cascais como um espaço de "refúgio, espera e passagem para milhares de exilados e refugiados no contexto dos diversos conflitos europeus".
O edifício, no centro do Estoril, no piso superior da Estação dos Correios, é um exemplar do modernismo português, datado de 1942, da autoria do arquitecto Adelino Nunes.
O Espaço Memória dos Exílios, inaugurado em 1999, tem um núcleo expositivo permanente constituído por documentação de arquivo, fotografias, objectos de época e material de referência, um auditório e uma biblioteca.
A equipa de António Carvalho prepara uma exposição que assinalará, no próximo ano, os 70 anos da Guerra Civil Espanhola e os 60 anos da chegada da família real espanhola ao Estoril.