Catarina Alves Costa, a cineasta antropóloga, estreia dois filmes no Panorama
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Lisboa, 12 Fev (Lusa) - A realizadora Catarina Alves Costa, antropóloga que escolheu o cinema como ferramenta de investigação e de descoberta, terá três documentários em exibição no Panorama - Mostra do Documentário Português, dois dos quais em estreia nacional.
A abrir o evento, na sexta-feira no cinema São Jorge, em Lisboa, será exibido "Falamos de António Campos", filme sobre o realizador que se dedicou ao documentário etnográfico, retrato antropológico de Portugal de há quarenta anos.
Na segunda-feira, dia 16, passam "Nacional 206", filme sobre uma fábrica de têxteis situada no Vale do Ave e premiado no DocLisboa 2008, e, em estreia nacional, "Parque", sobre a recuperação do parque de Serralves, no Porto.
Muitos dos filmes que Catarina Alves Costa faz, desde "Regresso à terra", de 1992, surgiram de encomendas de instituições ou produtoras, mas não é por isso que são menos autorais, explicou em entrevista à agência Lusa.
Licenciada em Antropologia Social, Catarina Alves Costa, 41 anos, divide o tempo entre o ensino (de antropologia visual e filme etnográfico) a conclusão do doutoramento e o cinema, em produção e realização.
Assume-se como documentarista e diz que o cinema é uma "ferramenta da Antropologia", enquanto ciência que trabalha sobre a vida social e humana.
"Escolhi o cinema, porque é uma forma de comunicar que se adapta à minha pessoa, sinto que faz sentido. Não sei se a investigação não vem depois, se não vem primeiro a ideia do filme e só depois a investigação. No fundo são desculpas que eu arranjo para ir à descoberta de mundos que me interessam", disse.
Do seu trabalho cinematográfico destacam-se "Senhora aparecida", premiado documentário sobre uma procissão religiosa no norte do país, e "O arquitecto e a cidade velha", no qual acompanhou Álvaro Siza em Cabo Verde.
O interesse pelo gesto quotidiano, do trabalho, levou-a a uma fábrica têxtil no Vale do Ave, onde acompanhou o dia a dia dos trabalhadores, desde o operário que trabalha por turnos até ao responsável pelas vendas dos tecidos fabricados.
O resultado é o filme "Nacional 206", sucessão de imagens e testemunhos de trabalhadores e no qual Catarina Alves Costa colocou o seu olhar subjectivo no retrato de um microcosmos social de Portugal.
"O documentário transporta consigo uma ilusão de realidade, uma espécie de ideia de que aquilo aconteceu; e as pessoas acreditam mais nas coisas quando vêem num documentário e isso gera uma certa ambiguidade que os próprios filmes têm que desmontar", defendeu.
Há quase vinte anos a fazer documentários, com a produtora Laranja Azul que fundou com Catarina Mourão, Catarina Alves Costa lamenta que o documentário português não tenha inovado muito em termos formais.
"O cinema é cabeça, são ideias. O cinema passa pela escrita e pela procura visual e eu acho que não se inova muito em termos formais, acho que se continuam a cumprir receitas pré-estabelecidas", alertou.
Para Catarina Alves Costa, os realizadores, sobretudo as novas gerações, deviam apostar mais em filmes sobre o país rural, urbano, contemporâneo, embora admita que não haja muito espaço para divulgar o cinema, pela escassa exibição sem ser em festivais.
O terceiro Panorama - Mostra do Documentário Português decorrerá de 13 a 22 de Fevereiro no cinema São Jorge, em Lisboa.
SS.