Censura chinesa retira o filme "Lost em Beijing" dos cinemas, apesar do corte das cenas eróticas

Pequim, 04 Jan (2007) - A censura chinesa ordenou que fosse retirado dos cinemas o filme "Lost in Beijing", apresentado no último Festival de Cinema de Berlim, apesar de ter obrigado a realizadora a reeditá-lo sem cenas eróticas, informou hoje a imprensa estatal.

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De acordo com o jornal Novo Diário de Pequim, a Administração Estatal da Rádio, Cinema e Televisão (SARFT, na sigla em inglês) proibiu a exibição de "Ping Guo" (título original em chinês), por considerá-lo pornográfico.

A estreia mundial de "Lost in Beijing", o último filme da realizadora Li Yu, teve lugar em Fevereiro do ano passado no Festival de Berlim, e estreou-se na China no passado dia 27 de Novembro.

A SARFT publicou um comunicado no seu site em que alega que o filme foi retirado dos cinemas, mais de um mês após a sua estreia na China, porque as cenas eróticas censuradas estão a aparecer na Internet e a versão integral já circula em DVD por todo o país.

Segundo a SARFT, "Lost em Beijing" apresentou-se a concurso na 57ª edição do Festival de Cinema de Berlim sem autorização e na versão integral, razão pela qual exige à cineasta, ao produtor Fang Li e aos actores que emitam um pedido público de desculpas.

A ordem da SARFT é para "parar a difusão e a projecção do filme e toda a sua difusão na Internet", acusando-o "de ter infringido os regulamentos com as cenas pornográficas não aprovadas pela censura", como se pode ler no seu site.

O filme, que conta a estória de uma "ménage à quatre" entre uma jovem massagista (a famosa diva chinesa Fang Bingbing), o seu chefe (Tony Leung Ka Fai, que protagonizou o filme "O Amante", em 1992), o seu marido (Tong Dawei) e a mulher do seu chefe (Elaine Jin), já tinha sido sujeito a muitos cortes para poder passar pela censura chinesa.

De acordo com o produtor Fang, a produção do filme foi obrigada a eliminar todas as cenas de sexo, de ruas sujas, as da bandeira nacional e as imagens da praça de Tiananmen, centro político simbólico da China onde ocorreu o massacre de estudantes pro-democráticos pelo exército chinês em 1989.

Retrato de uma Pequim em pleno boom económico que arrasta milhares de pessoas para a miséria, "Lost in Beijing" mostra a forma como o dinheiro e a pressão social afectam a vida dos casais e apresenta cenas eróticas ousadas que vão contra as habituais normas chinesas.

A SARFT pediu a todos os cinemas do país que devolvam a fita num período de 15 dias e vai proibir o produtor e a empresa Laurel Film, a produtora independente responsável pela película, de filmarem nos próximos dois anos.

A retirada de "Lost em Beijing" acontece enquanto decorre um pedido não oficial contra o cinema norte-americano na China (Pequim aprova um limite de 20 filmes estrangeiros por ano, a maioria são americanos), que está a abrir espaço aos filmes locais para aumentarem as suas receitas.

Outro dos filmes co-produzidos pela Laurel Film, "Palácio de Verão" também teve problemas com a censura chinesa em 2006.

O realizador Lou Ye ficou interdito de filmar durante cinco anos por ter apresentado o seu filme no Festival de Cannes em 2005 sem a autorização necessária.

A interdição de "Lost in Beijing" surge depois de, no passado dia 31 de Dezembro, a SARFT ter emitido um regulamento que fortalece as medidas contra o erotismo no cinema e ameaça retirar as licenças aos estúdios cinematográficos se estes produzirem filmes com conteúdo sexual.

A nova ordem proíbe os filmes eróticos de serem exibidos nos festivais de cinema nacionais e proíbe que directores e actores participem nesses filmes, segundo divulgou a agência Nova China.

A nova regulamentação adverte os estúdios para que "não produzam películas com actividades sexuais, cenas de violação ou prostituição, exposição obscena de genitais o pervertidos sexuais" e restringe a inclusão de cenas com conversas consideradas vulgares, "canções sujas e determinados efeitos de som".

A China exerce uma forte censura aos meios de comunicação, que afecta não só os conteúdos sexuais mas também os políticos.

O último filme de Ang Lee, "Lust, Caution", foi censurado nos cinemas chineses com a autorização prévia do próprio realizador taiwanês que aceitou retirar sete minutos do filme com cenas mais ousadas entre os protagonistas para que o filme pudesse ser exibido na China.

A China é considerado um dos regimes do mundo que mais censura aplica prejudicando a liberdade de informação.

VZP

Lusa/Fim


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