Cesariny, "o grande artista global português", dirigiu o coro do maestro Lopes Graça
Lisboa, 21 Out (Lusa) - Mário Cesariny, por muitos considerado o maior artista global português por ter praticado várias disciplinas artísticas, da pintura à performance, da poesia à dramaturgia, também revelou talento para a música, chegando a dirigir o coro do maestro Fernando Lopes Graça.
"O pai de Cesariny não queria que ele aprendesse música e por isso recusou-se a pagar-lhe as aulas. Mas Lopes Graça apercebeu-se de que ele tinha muito talento, e deu-lhe aulas gratuitamente", recordou Carlos Cabral Nunes, director artístico da Perve Galeria, que reúne um importante acervo do artista.
Cesariny será evocado e homenageado durante o 2.º Encontro de Arte Global, que decorre entre 01 de Novembro de 2008 e 31 de Janeiro de 2009, em Lisboa, para promover a reflexão sobre o papel da arte e dos artistas na sociedade actual.
"Na história recente de Portugal, Mário Cesariny e Almada Negreiros foram os dois maiores artistas globais. Mas Almada não foi músico e Cesariny sim. Criou em todas as áreas, primeiro joalharia, que aprendeu com o pai, e depois a música, a poesia, dramaturgia, cinema, pintura", recordou o também responsável pela organização do evento.
Para Carlos Cabral Nunes, co-autor do conceito de Arte Global em 1997, com a realização do 1.º Encontro de Arte Global, "o reconhecimento público de Cesariny fica aquém da obra".
Nascido a 09 de Agosto de 1923, em Lisboa, Cesariny de Vasconcelos estudou na Academia de Amadores de Música, sob a orientação do professor Fernando Lopes Graça, e ingressou no princípio da década de 40 na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde conheceu, entre outros, Fernando José Francisco e Cruzeiro Seixas, que o acompanharam na aventura surrealista.
Foi protagonista de muitas acções e criações polémicas com os outros artistas surrealistas, mas a partir do início dos anos 50 o grupo começou a desintegrar-se.
Cesariny manteve-se activo na poesia, nas artes plásticas e na tradução, passando a conviver com Luís Pacheco, Manuel de Lima, António José Forte, João Rodrigues, Manuel Castro, João Vieira e Helder Macedo.
"Titânia", "Pena Capital", "Antologia do Cadáver Esquisito" e "Planisfério e Outros Poemas" são alguns exemplos da sua obra poética ao longo dos anos 50 e 60, mas continuou também a realizar exposições individuais e colectivas em Portugal, Brasil, Bélgica, Estados Unidos.
Em 2006, ano em que faleceu - a 26 de Novembro, com 83 anos - ainda assistiu à inauguração de uma exposição com os seus amigos surrealistas Cruzeiro Seixas e Fernando José Francisco, organizada pela Perve Galeria.
Na colectiva, os três emblemáticos artistas portugueses expuseram cerca de noventa obras (desenho, pintura, escultura e montagens), criadas entre 1941 e 2006, incluindo um conjunto inédito de 12 "Cadavres Exquis", utilizando o processo desenvolvido pelo Grupo Surrealista de Paris, liderado por André Breton, no início do Séc XX.
No âmbito do 2.º Encontro de Arte Global, será realizada uma exposição evocativa de Mário Cesariny no Panteão Nacional, contendo obras que se encontram no acervo da Perve Galeria e em várias colecções particulares, realizadas entre 1947 e o ano do seu falecimento.
AG.
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