Chico César celebra 30 anos de "Aos Vivos" em Portugal com "esperança" e "angústia"
A uma semana de pisar os palcos portugueses para celebrar 30 anos do primeiro disco "Aos Vivos", o músico brasileiro Chico César disse à Lusa que traz na bagagem uma mensagem de esperança, mas também de angústia.
"Nós tivemos há pouco tempo uma eleição em Portugal que aponta para um lugar dessa esperança, mas o tempo inteiro é um tempo de tensão", afirma o cantor e compositor, para quem "o mundo tem assistido praticamente paralisado à destruição da Palestina por Israel com uma cumplicidade silente. É um absurdo o que nós estamos assistindo", enfatiza.
Observando uma "Europa assolada por uma onda de conservadorismo, de xenofobia muito forte (...), os Estados Unidos, que é um país importante no equilíbrio do mundo, comandado por uma ala muito conservadora, em torno do Trump", ou "a perda da força de organismos como a ONU", o músico lamenta: "Estamos deixando que o mais forte possa agir com suas mãos de ferro sobre o mais fraco".
"Então esse tempo é um tempo de angústia. Como é que eu manifesto essa angústia? Eu manifesto com a minha arte, com a minha música, como sempre fiz. Não podemos ficar calados", acrescenta.
A este propósito recorda "Mama África", um dos 15 temas do álbum "Aos Vivos" para confessar que 30 anos depois há temas "que não envelhecem".
"Isso nos dá uma certa angústia, porque quando eu cantei a `Mama África` naquele momento, de algum modo eu reivindicava uma solução da mãe solo [que cria os filhos sozinha] também da própria África abandonada, e esses temas permanecem", afirma.
"O `Aos Vivos`, hoje, num tempo mais digitalizado, num tempo de relações mais artificiais, plásticas, eu acho que soa como um sussurro de humanidade", confessa.
Também por isto, o musico paraibano diz que traz para Portugal uma "mensagem de amor", embalada pela voz do violão, replicando a intimidade que marcou a estreia do primeiro álbum em 1995.
"A mensagem que eu levo para Portugal é uma mensagem de amor. É de um país que foi colonizado, assim como foram vários outros países colonizados. Nós amamos os portugueses que fizeram a revolução dos cravos. Nós queremos ser amados também", sublinha.
O músico que sempre disse que toda a arte é política, deixa uma outra mensagem aos portugueses: "Nós temos muito dessa herança lusitana na nossa cultura, no nosso sangue, em nossa construção de sociedade. As fronteiras (...) tendem a se tornar mais diluídas. Nós não queremos ser vistos como invasores. Queremos que a nossa contribuição como turistas, como irmãos visitantes, como lusofalantes, como luso cantantes, seja acolhida e respeitada".
Concentrado na digressão que marca o seu regresso a Portugal, Chico César não está, por isso, menos atento ao que se passa no Brasil, e em particular, ao julgamento do caso Marielle (vereadora assassinada em 2018), lembrando que o Brasil, precisa "diariamente de ir acertando contas com o passado mais remoto e o seu passado mais recente".
"Essa coisa do patriarcado matar as mulheres, submeter as mulheres à sua vontade, essa coisa das pessoas brancas matarem as pessoas negras ou submeterem as pessoas negras, eu acho que Marielle traz uma síntese. Porque é mulher, é negra, é LGBTIQA+, favelada, o centro branco patriarcal masculino odeia ter de se relacionar de modo mais igualitário com a favela feminina, negra, LGBTIQA+"
"Esperamos que não se passe uma borracha sobre esses problemas, (...) é salutar para a sociedade brasileira que os mandantes, os autores intelectuais do assassínio de Marielle e Anderson [o motorista] e os beneficiários dessas mortes sejam acusados, julgados e punidos. É isso que eu espero".
Em Portugal, para além dos concertos entre 07 e 23 de março, o cantor tem outra paragem obrigatória: Eu tenho que ir sempre ao Bairro Alto encontrar outros irmãos negros da diáspora africana para cantar, para trocar ideias. Gosto de conversar com os meus irmãos para ver como é que eles estão se sentindo. Isso me ajuda a me situar também em Portugal e na Europa".
Chico César tem atuações marcadas em Leiria, dia 12 de março, no Teatro José Lúcio da Silva; em Torres Novas, dia 13, no Teatro Virgínia; em Ponta Delgada, dia 14, no Teatro Micaelense; no Porto, dia 16, na Casa da Música; em Lisboa, dia 18, no Teatro Tivoli; na Guarda, dia 20, no Teatro Municipal; em Estarreja, dia 21, no Cine-Teatro; em Vale de Cambra, dia 22, no CAE de Vale de Cambra.