China recusou patrocinar frente afro-asiática das ex-colónias portuguesas - investigador

Lisboa, 19 Jun (Lusa) - A China recusou patrocinar na década de 1950 uma frente afro-asiática das ex-colónias portuguesas, como defendia Viriato da Cruz, segundo um livro que traça a vida e obra daquele nacionalista angolano, lançado quarta-feira, em Lisboa.

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Para as autoridades chinesas, "equiparar Macau e Timor às então colónias portuguesas em África era impensável", disse à Lusa o investigador Moisés Fernandes, um dos coordenadores do livro "Viriato da Cruz - O Homem e o Mito", que reúne ainda textos do médico Edmundo Rocha e do professor Francisco Soares, ambos angolanos e que residem em Portugal.

Viriato da Cruz, que nasceu em 1928, em Porto Amboim, Angola, e morreu em 1973, em Pequim, "chegou a ser a personalidade africana lusófona mais bem cotada junto do regime chinês", precisou à Lusa Moisés Fernandes, director do Instituto Confúcio, da Universidade de Lisboa.

O investigador adiantou que a sua participação no livro visou "dar a conhecer o lado chinês da vida e obra" do nacionalista angolano, um dos fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

"Quando Viriato da Cruz quis formar o MPLA, tentou obter apoios junto das embaixadas da então União Soviética e da China em Conacri. A ideia dele era criar uma frente, uma ampla frente afro-asiática de todas as colónias portuguesas, incluindo a libertação de Macau e Timor", sublinhou.

"A URSS recusou, mas a China aceitou, embora limitando a exigência de independência às ex-colónias em África. A China não queria a libertação de Macau nem de Timor", continuou.

Viriato da Cruz aceitou a exigência chinesa e em 1960 ou 1961 viajou pela primeira vez para Pequim, acompanhado de Amílcar Cabral, fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

"E foi nessa altura que ele foi o portador do primeiro financiamento do MPLA. Os chineses entregaram-lhe um molho de notas, que escondeu num sobretudo. Foi o primeiro dinheiro que o MPLA recebeu para financiar as suas actividades", frisou.

A ligação à China reforçou-se com o desfecho da luta no seio do MPLA, em que a linha pró-soviética, liderada por Agostinho Neto, venceu a facção pró-chinesa, em que pontificavam Viriato da Cruz, Matias Migueis e José Miguel, entre outros.

Estes ex-dirigentes do MPLA juntaram-se depois à Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), liderada por Holden Roberto, levando Washington, que apoiava a organização, a recear por um eventual radicalismo nas acções.

"Posteriormente, Viriato da Cruz incompatibiliza-se com a FNLA e opta por aceitar o convite das autoridades chinesas para se radicar em Pequim", acrescentou Moisés Fernandes.

Em Pequim, dinamizou uma cisão na Organização dos Escritores Afro-Asiáticos, tutelada por Moscovo.

"Viriato da Cruz chegou a fazer múltiplas declarações de apoio ao Presidente Mao Zedong e à política chinesa, invectivando a prática revisionista dos soviéticos, como então Pequim caracterizava o movimento comunista tutelado por Moscovo, sendo convidado a efectuar um périplo pela Ásia e África", destacou.

Entre Janeiro e Fevereiro de 1967, quando regressa a Pequim, Viriato da Cruz elaborou um relatório sobre o périplo, concluindo que "a revolução maoista era impossível em África".

Para Viriato da Cruz, "a conjunção de elites corruptas, massas ignorantes e economias rudimentares inviabilizavam a oportunidade de uma revolução maoista em África".

"Ele estava convencido que escrevendo o relatório nada lhe aconteceria, dada a importância e o prestígio que tinha alcançado em Pequim", salientou Moisés Fernandes.

Instado a rever o relatório que escrevera, Viriato da Cruz recusou e em conformidade entrou em desgraça junto do Partido Comunista Chinês, "e é apanhado no turbilhão da Revolução Cultural chinesa".

"Perde tudo e passa a viver de esmolas dos amigos. Ao mesmo tempo tenta sair da China, mas nem ele, nem a mulher, Maria Eugénia, ou a filha, são autorizados a viajar. Ele sabia muitas coisas e os chineses receavam que Viriato da Cruz revelasse o que sabia", considerou.

"Um dia foi convocado pela polícia. Com medo, queimou tudo o que tinha escrito, todos os documentos sobre Portugal e as ex-colónias africanas", precisou Moisés Fernandes.

Isolado e sentindo-se abandonado, Viriato da Cruz alimenta a obsessão de sair da China, o que leva a mulher a um acto de desespero.

"A Maria Eugénia resolveu tomar uma atitude. E, para que fossem expulsos do país, derrubou, em 1971, a estátua de gesso de Mao Zedong que se encontrava no átrio do Hotel Amizade, em Pequim", relatou.

Remetidos para fora de Pequim, a família Viriato da Cruz é instalada no sul da capital chinesa, "possivelmente num campo de concentração", numa área onde não residiam estrangeiros e onde era mais fácil controlar os movimentos e os contactos que mantinha.

Sem qualquer meio de subsistência, Viriato da Cruz morre dois anos depois, vítima de um enfarte cardíaco - "é essa a versão oficial" -, e só então a mulher e filha são autorizadas a regressar a Pequim.

"A mulher enviou uma carta ao cônsul de Portugal em Hong Kong, Carlos Simões Coelho, que a remeteu para Lisboa, endereçando ao director-geral da PIDE, Fernando Silva Pais", salientou Moisés Fernandes.

Autorizada a emissão dos documentos de viagem, a mulher e a filha puderam finalmente viajar.

O livro, da responsabilidade da Editora Prefácio, vai ser igualmente lançado em Luanda, neste caso pela editora Chá de Caxinde.

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