Ciclo de debates discute estratégias para descolonizar definitivamente as cidades

A identificação de estratégias para descolonizar definitivamente e de forma sustentada as cidades é o objetivo do segundo ciclo de debates do projeto "ReMapping Memories Lisboa - Hamburg", organizado pelo Goethe-Institut Portugal, que arranca no dia 30 de junho.

Lusa /

Lançado em maio, este projeto pretende identificar os lugares do colonialismo no espaço urbano e inscrever testemunhos sobre a sua localização, promovendo "estratégias de descolonialização", que rompam com perspetivas ainda dominadas pelo passado colonial.

A ideia é "pensar a relação da cidade com a colonialidade: o modo como o colonialismo, a resistência anticolonial e a presença africana são transmitidos na memória coletiva, nos vestígios materiais e no espaço público das cidades portuárias de Lisboa e Hamburgo", dois antigos centros do colonialismo europeu, segundo o texto de apresentação do projeto.

Depois de um primeiro ciclo de debates promovido em maio, dedicado ao tema "Memorializar e Descolonalizar a Cidade (Pós)Colonial", o Goethe-Institut promove agora um segundo ciclo de conferências, a decorrer entre 30 de junho e 01 de julho, dedicado ao tema "Como descolonizar as nossas cidades?".

Assim, durante dois dias, políticos, ativistas e investigadores debatem estratégias, conceitos e ideias para uma descolonização definitiva e sustentada das cidades, numa conferência digital europeia que reúne especialistas portugueses, alemães e espanhóis, em busca de uma resposta ao desafio de lidar com os vestígios do passado colonial, que muitas cidades europeias enfrentam.

"Como podem moldar-se os processos democráticos e de memória política abrangentes a toda a cidade? Que estratégias específicas nos permitem lidar com os legados coloniais no espaço urbano, a fim de criar contranarrativas, contribuir para dar luz às histórias reprimidas e esquecidas, e tornar visíveis os cidadãos racializados? Como podem ser incorporadas as perspetivas e reivindicações do maior número possível de grupos da sociedade civil, em especial aqueles com experiência de migração e diáspora?", são alguns dos principais temas que vão estar no centro dos debates.

Os especialistas querem também perceber "como é que uma mudança de perspetiva sobre a memória (pós)colonial pode tornar-se efetiva e quais as áreas da sociedade que devem ser integradas nesses processos, de forma a terem um efeito duradouro", explicam os organizadores.

A conferência inaugural abordará as "Políticas e práticas de memória para a cidade como um todo", contando com intervenções de Carsten Brosda, senador do ministério da Cultura e dos Media de Hamburgo, Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura de Lisboa, Jordi Rabassa Maçons, conselheiro da Memória Democrática de Barcelona, Beatriz Gomes Dias, fundadora da Djass -- Associação de Afrodescendentes, e Kodjo Valentin Glaeser, do conselho consultivo para a descolonização de Hamburgo.

Este painel vai discutir conceitos de memória nos processos de descolonização urbana, tomando como base os exemplos de Lisboa, Hamburgo e Barcelona, e os desenvolvimentos aí alcançados, no sentido de dar resposta às exigências da sociedade civil, de encontrar "uma forma diferente de lidar com o passado colonial".

Segue-se uma conferência sobre as "Contranarrativas: novas toponímias, vestígios anticoloniais, histórias esquecidas", conduzida por José Lino Neves, da Associação Batoto Yetu, que vai abordar "A memória da presença africana em Lisboa", por Tahir Dela, da associação Decolonize Berlin, que intervirá sobre o tema "Renomear as ruas como um processo negocial", e Gisela Ewe, do Arquivo Público de Hamburgo, que falará sobre "Um plano municipal para lidar com as toponímias".

Este painel vai centrar-se em conceitos concretos para a descolonização das cidades e para o desenvolvimento de contranarrativas, entre os quais se inclui um projeto que pretende tornar visível a presença africana em Lisboa ao longo dos séculos, esclarece a organização do evento.

Nesta sessão, vai discutir-se também a definição de parâmetros concretos para uma estratégia urbana que permita lidar com nomes de ruas de Hamburgo com implicações coloniais, assim como "o difícil processo de negociação social que tal envolve", com base no exemplo de Berlim, onde foram atribuídos novos nomes a certas ruas.

No dia 01 de julho, o tema de abertura é "Monumentos (anti)coloniais, espaços para abrir debate?" e conta com as intervenções de Joachim Zeller, historiador de Berlim, com uma intervenção sobre "O Monumento a Wissmann em Hamburgo -- Recontextualizar o passado", de Anja Hesse, da Câmara Municipal de Braunschweig (Alemanha), que se debruçará sobre "O Monumento Colonial de Braunschweig -- A intervenção artística como contranarrativa", e de Evalina Dias, também da Djass - Associação de Afrodescendentes.

Ainda no mesmo painel, falará Judite Primo, do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento, sobre "Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas -- Entre a memória e amnésia coletiva", e Philip Kojo Metz, artista berlinense, que fará uma intervenção subordinada ao tema "Nada mais -- Vazios (pós)coloniais no espaço urbano".

Toda esta sessão abordará a problemática de como lidar com os vestígios perenes -- e ainda existentes em pedra -- do colonialismo.

Diferentes perspetivas no âmbito da arte, da administração pública e da ciência vão debruçar-se sobre a questão de "como os monumentos anticoloniais, as intervenções artísticas em monumentos existentes ou as estratégias de contextualização poderão criar espaços de debate e causar uma sensação de disrupção que seja duradoura".

Em causa, estarão o Monumento a Wissmann, em Hamburgo, o Monumento Colonial, em Braunschweig, e o novo Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas, em Lisboa, entre outros.

O segundo dia de debates termina com "Como projetar as cidades anticoloniais e antirracistas do futuro?": após a discussão de estratégias concretas de descolonização, a sessão concluir-se-á com uma reflexão sobre como as formas de lidar com o passado poderão contribuir para criar cidades anticoloniais, antirracistas e socialmente mais justas.

A académica e ativista Cristina Roldão, investigadora do CIES-ISCTE - Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, em Lisboa, em conjunto com Natasha A. Kelly, especialista em ciências da comunicação, escritora, investigadora em comunicação e artista, em Berlim, vão discutir a necessária mudança de perspetiva em todas as áreas da vida pública.

O `link` de acesso às conferências irá ficar disponível na página do evento, em goethe.de/portugal.

"ReMapping Memories Lisboa -- Hamburg: Lugares de Memória (Pós)Coloniais" é um projeto do Goethe-Institut Portugal e foi deliberadamente concebido como um projeto europeu, para salientar a dimensão e interligação europeias presentes no fenómeno do colonialismo.

No centro de "ReMapping Memories Lisboa -- Hamburg" encontra-se o desenvolvimento de uma página com mapas digitais das cidades de Hamburgo e Lisboa, onde irão sucessivamente ser publicados diversos lugares de memória (pós)coloniais, com abordagens de contextualização e análise.

Este `website` será disponibilizado no segundo semestre de 2021.

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