Cidadãos querem ser esclarecidos sobre uso correcto em português da palavra paralímpico

Lisboa, 02 Nov (Lusa) - A utilização da palavra paralímpico usada em eventos e em nomes de organizações desportivas faz parte do quotidiano das pessoas mas a questão sobre se o seu uso em português é correcto tem sido largamente debatida, sem conclusão.


Dina Dias © 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Mais recentemente, e após os Jogos Paralímpicos de Setembro, em Pequim, a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes recebeu vários e-mails de pessoas e entidades a pedirem esclarecimentos sobre se o uso do termo paralímpico é correcto em termos linguísticos.

O próprio Instituto do Desporto de Portugal (IDP) teve dúvidas, tendo solicitado vários pareceres a linguistas sobre essa questão nos últimos anos.

Nos pareceres pedidos a conclusão foi unânime: todos desaconselham o uso do termo paralímpico, que consideram violador da estrutura do português.

A agência Lusa tentou, sem sucesso, falar com o Instituto do Desporto de Portugal sobre o assunto.

Em entrevista à agência Lusa, o chefe da missão paralímpica portuguesa, Jorge de Carvalho, explicou que a palavra é utilizada em Portugal por orientação do Comité Internacional Paralímpico, que obriga os seus comités filiados a usar aquela terminologia.

Jorge de Carvalho contou à Lusa que muitas dúvidas têm chegado à Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes nos últimos anos e foi isso que o levou, no ano passado, a elaborar um trabalho (não publicado) sobre a questão e que pretende - agora que o Comité Paralímpico português foi criado - levar à discussão.

"A terminologia paralympic a usar em língua portuguesa deveria ser, na minha opinião, paraolímpico", afirmou Jorge de Carvalho, precisando que a sua perspectiva baseia-se em pareceres de linguistas e em fundamentos históricos que, por sua vez, estão na origem da palavra.

O responsável recordou que em termos históricos a origem da palavra provém da cidade grega Olímpia, local onde se realizaram os Jogos Olímpicos da Antiguidade de 776 a.C. a 393 d.C., sendo que os Jogos Olímpicos da Era Moderna que tiveram início em 1896 reportam-se a Olímpia, um dos cenários dos quatro jogos que tinham lugar na Grécia, para além dos Píticos, os Nemeus e os Ístmicos.

"Na minha opinião pessoal, em termos de fundamentos históricos da etimologia da palavra, o termo correcto é paraolímpico", sublinhou.

"Em termos de comunicação devemos comunicar de forma correcta. É a nossa língua, o que nos define também em termos da nossa matriz e em termos históricos o que está subjacente é a ideia de paralelismo aos jogos Olímpicos, mas os da antiguidade clássica", contou.

Jorge de Carvalho frisou à Lusa que, no âmbito do associativismo desportivo português, a terminologia paralímpico foi adoptada por uma razão normativa, ou seja, a emanação partiu do Comité Paralímpico Internacional que estabelece o uso daquela palavra.

"Quando iniciei o meu trabalho em 2007 fi-lo com o intuito de que este servisse de base para um debate mais alargado", disse o chefe da missão paralímpica portuguesa.

Uma vez instituído, em Setembro último, o Comité Paralímpico de Portugal, "se calhar é chegada a hora de iniciar um debate, encetar esforços junto das entidades competentes por forma a obter o devido esclarecimento e a eventual autorização para utilização do termo mais correcto em língua portuguesa", acentuou.

"Se paralímpico é a terminologia correcta, então devemos encetar contactos a nível nacional junto do Comité Olímpico de Portugal - que tem os direitos em termos de símbolos olímpicos - clarificar qual a terminologia correcta e se no caso do português usamos ou não paralímpico", disse.

Contactado pela agência Lusa para comentar este assunto, o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), Vicente Moura, considerou que esta questão "não é de carácter linguístico mas ético".

"Para mim tanto faz se usamos uma palavra ou outra mas temos de perceber que estamos a falar de um movimento, temos de ter a noção histórica de que durante muito tempo os deficientes não tinham acesso a competições desportivas de excelência de alto nível e conquistaram isso com todo o direito e mérito", contou.

Este movimento, sublinhou Vicente Moura, começou em Inglaterra, espalhou-se pelo mundo e foi fundado o Comité Paralímpico e, por isso, "não faz sentido que os comités que estão lá filiados usem uma terminologia diferente".

"Por outro lado, a palavra paralímpico não é portuguesa, não nasceu em Portugal, foi simplesmente adoptada", salientou.

Na opinião do presidente do COP, a palavra paralímpico é um neologismo e não um estrangeirismo.

"Talvez em questões de ordem linguística haja opiniões contrárias no entanto a palavra paralímpico deriva de paraplégico. Nasceu em Inglaterra e foi uma associação entre paraplégico e a palavra olímpica", disse.

"Por outro lado, existe um órgão internacional que é o Comité Internacional Paralímpico e se se chama assim naturalmente por arrasto os comités nos diversos países também deverão chamar-se paralímpicos", sustentou Vicente Moura.

Para o presidente do COP, não há argumentos sólidos para não se usar a palavra paralímpico e sim paraolímpico.

"Contudo, se se optar por usar o termo paraolímpico que assim seja, não tenho nada contra", concluiu.

DD

Lusa/Fim


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