Cineasta canadiano filho de mãe portuguesa inspira-se em Leiria para criar filme de animação
O cineasta canadiano Sean Kim, filho de mãe portuguesa e pai coreano, inspirou-se nas memórias familiares de Leiria e Caranguejeira para criar a curta-metragem de animação "Gale", exibida em festivais internacionais.
"Crescer com as culturas portuguesa e coreana proporcionou-me uma infância muito enriquecedora, mas também existe uma sensação de estar entre dois mundos", afirmou Sean Kim à agência Lusa, em Toronto.
Filho de mãe de origem portuguesa e pai de origem coreana, o realizador nasceu e cresceu em Toronto, no seio de duas famílias que emigraram para o Canadá nas décadas de 1960 e 1970.
"Essa sensação de estar entre dois mundos levou-me a procurar histórias que explorassem essa ambiguidade, porque a vida real raramente é apenas uma coisa ou outra", explicou.
A curta-metragem de nove minutos, desenvolvida como projeto final da licenciatura em cinema na Toronto Metropolitan University, acompanha a amizade entre uma mulher solitária, figura central de uma aldeia, e uma criatura gigante nascida de uma tempestade mágica.
O cenário da história foi inspirado nas visitas que Sean Kim fez à região de Leiria, de onde é originária a família materna, particularmente à localidade de Caranguejeira.
"A praça de Leiria tornou-se praticamente a base para a praça da aldeia do filme. O clima, o calor, a paisagem e até a arquitetura foram elementos fundamentais na criação daquele mundo", recordou.
Para o realizador, a aldeia não funciona apenas como cenário, mas como uma personagem que acompanha a transformação dos protagonistas, numa narrativa sobre solidão, amizade, aceitação e comunidade.
"A aldeia também faz a sua própria viagem, tal como a personagem principal, à medida que ambas descobrem novas ligações, amizade e um sentido de comunidade", explicou.
O filme nasceu de uma ideia desenvolvida em 2023 e contou com a participação de mais de 60 artistas, incluindo profissionais e colaboradores das áreas de animação, som e música.
Estreado em maio de 2024, no Toronto Met Film Fest, "Gale" recebeu o prémio do público daquele festival e foi posteriormente apresentado em eventos cinematográficos no Canadá, Estados Unidos e Espanha.
Entre as participações indicadas pelo realizador encontram-se o Whistler Film Festival, o festival de ficção científica e fantasia de Seattle, os Barcelona Indie Awards e o Canadian International Film Festival, em Montreal.
A obra recebeu ainda uma nomeação para melhor curta-metragem de animação nos NewFilmmakers Los Angeles, segundo a informação facultada pelo cineasta.
Mas a ligação à herança portuguesa ultrapassa os elementos arquitetónicos e paisagísticos utilizados na produção.
Sean Kim explicou que a própria criatura, construída a partir de diferentes materiais, representa simbolicamente a experiência de crescer entre várias culturas.
"É feita de madeira, tecido, partes de casas e tem um cata-vento como cabeça. Todos estes elementos juntam-se para formar uma única pessoa", descreveu.
"Identifiquei-me profundamente com isso, porque também sou o resultado da combinação de duas, ou até três culturas, se incluirmos a canadiana, que se fundem numa única pessoa", acrescentou.
O realizador considera que a animação se tornou também uma forma de ultrapassar as dificuldades linguísticas que sente na comunicação com familiares portugueses e coreanos.
"A maior barreira que sempre tive foi a língua, sobretudo para comunicar com a família. De certa forma, transformei o cinema e a animação numa segunda linguagem para expressar aquilo que não conseguia dizer em português ou coreano", afirmou.
Sean Kim, que concluiu a licenciatura em 2024, visitou Portugal pela última vez em 2019, numa viagem que calcula ter sido a décima ao país.
Recentemente, adquiriu a nacionalidade portuguesa e admite a possibilidade de passar temporadas prolongadas em Portugal, onde gostaria de desenvolver novos projetos cinematográficos.
"Espero um dia poder viver em Portugal durante períodos mais longos, aprofundar a ligação às minhas raízes, fazer filmes e conhecer artistas portugueses", declarou.
Atualmente, o cineasta trabalha em regime de contrato no Toronto International Film Festival (TIFF), atividade que concilia com o desenvolvimento de projetos artísticos independentes.
O realizador acredita que a identidade multicultural continuará a influenciar o seu trabalho, independentemente dos temas que venha a explorar.
"Sei que vou continuar a fazer filmes sobre as minhas origens, sobre o meu lado coreano e português, seja de forma consciente ou inconsciente", afirmou.
"Mais do que tudo, quero que as histórias que conto me permitam criar novas pontes e novas ligações com estas culturas", concluiu.