Clamor por mais repressão em Portugal e no mundo é "assustador" afirma Fotógrafo João Pina
O fotógrafo João Pina considera "assustador" que a repressão e a violência sejam cada vez mais "naturalizadas", defendendo que a memória da ditadura e do campo do Tarrafal é fundamental para compreender o presente e preservar as liberdades.
"Naturalizam-se estas repressões, naturaliza-se esta violência, algumas pessoas reclamam-nas como algo necessário e fundamental", disse, apontando o atual contexto político, em Portugal e no mundo, apontando o Brasil, a Hungria e os Estados Unidos (onde vive atualmente), como exemplos "gritantes".
"Esse clamor de mais repressão é uma coisa assustadora para mim", acrescentou o fotógrafo, que apresenta em 22 de outubro, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), em Lisboa, a exposição "Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal".
"Não são os 100 anos do golpe nem os 90 anos da abertura do campo que fazem a exposição necessária", afirmou à Lusa João Pina, para quem a importância de revisitar a história do Tarrafal vai muito para além das datas, embora estas pesem e ajudem a refletir.
A investigação que esteve na origem do projeto levou João Pina a confrontar-se não apenas com a história da sua família, ligada à prisão do avô no Tarrafal, em Cabo Verde, mas também com o lugar que a ditadura e a resistência ao fascismo e ao colonialismo ocupam na memória coletiva portuguesa, em particular sobre a " resistência africana ao colonialismo português".
"Essa segunda vida que o Tarrafal tem, a partir de 1962, com a entrada dos presos políticos angolanos e depois guineenses e a seguir cabo-verdianos, é uma fase que se fala muito, muito pouco em Portugal. O campo esteve aberto até maio de [19]74, precisamente para os presos políticos africanos", recordou.
Para o fotógrafo, o conhecimento sobre o campo de concentração permanece limitado, sobretudo entre as gerações mais jovens, e manifesta preocupação com a forma como o Estado Novo e a ditadura portuguesa são abordados nos manuais escolares.
"Das gerações nascidas a seguir ao 25 de Abril, muito pouca gente sabe o que é que foi o Tarrafal", afirmou, considerando que o tratamento da ditadura no ensino é feito de forma "absolutamente displicente".
João Pina questiona também a atenção dada a diferentes capítulos da história portuguesa, contrapondo a celebração dos chamados Descobrimentos ao pouco espaço que, na sua perspetiva, é dedicado à escravatura, à repressão política e à violência exercida pelo Império Português e pelo fascismo em África.
"Choca-me um bocado que não falemos das barbaridades que o Império Português e que o fascismo português cometeu em África, durante a Guerra Colonial", afirmou.
O fotógrafo sublinha que o seu objetivo não é impor uma leitura da história, mas contribuir para que estes temas entrem na discussão coletiva e possam ser debatidos a partir de diferentes perspetivas.
"Mais do que afirmações, a mim interessa-me o diálogo", disse, defendendo a importância de criar espaços em que as pessoas possam conversar abertamente, mesmo quando têm pontos de vista diferentes, e estejam dispostas a aprender.
A investigação que começou no arquivo familiar acabou por alargar-se às histórias dos companheiros de prisão do avô e à resistência africana ao colonialismo português. Para João Pina, o acesso a esse material implica uma responsabilidade: dar visibilidade às experiências de quem passou pelo campo e homenagear aqueles que ali sofreram.
Os antigos presos portugueses do Tarrafal já morreram, lembrou, mas há ainda antigos presos africanos vivos, cujas histórias considera importante recuperar enquanto é possível.
"É render a devida homenagem às pessoas que sacrificaram muito das suas vidas para que nós hoje possamos estar aqui a ter esta conversa sem ter ainda grandes preocupações sobre aquilo que possa acontecer a seguir a falarmos", afirmou.
"Daqui a 50 [anos], não tenho a certeza" de que assim continue a ser, acrescentou, garantindo que contribuirá, dentro das suas possibilidades, para que a liberdade de expressão e o humanismo sejam valores preservados.