Cofre guarda edição de "os Lusíadas" de 1572 desconhecida do público

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Sem nenhum pedido de consulta durante 2006, esta edição de "Os Lusíadas" tem sido, ao longo dos anos, apenas solicitada por investigadores e estudiosos
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Um cofre climatizado guarda uma das principais raridades do acervo da Biblioteca Pública de Arquivo de Ponta Delgada: um dos seis exemplares referenciados da primeira edição de "Os Lusíadas", de 1572, e que permanece desconhecido do grande público.

Perante a sua raridade e valor histórico, a obra maior do poeta Luís Vaz de Camões, que narra os feitos dos descobrimentos portugueses, está "cercada de cuidados", explicou à agência Lusa o responsável pelas colecções particulares da única biblioteca nos Açores a dispor de um exemplar tão raro da obra.

Sem nenhum pedido de consulta durante 2006, esta edição de "Os Lusíadas" tem sido, ao longo dos anos, apenas solicitada por investigadores e estudiosos, a maioria dos quais professores universitários.

Apesar da fragilidade, o livro, de 18 centímetros de altura, editado em Lisboa, "está em bom estado de conservação", assegurou Francisco Silveira, ao adiantar que o exemplar poderá ser consultado pelo público, mas com certas regras a cumprir.

Composto por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, a obra pode ser consultada, depois de preenchida uma ficha, como acontece com os outros livros da biblioteca, embora o requerente tenha de justificar, por escrito, qual o seu propósito.

"O objectivo de uma biblioteca é facultar o acesso a todos os documentos e livros que possui, claro que com regras mais rígidas para edições mais importantes", afirmou o Francisco Silveira.

Apesar de disponível, é, ainda, "rara" a requisição desta edição de "Os Lusíadas" por desconhecimento da sua existência em Ponta Delgada, admitiu.

Um desconhecimento que não incomoda Francisco Silveira, até porque a biblioteca não implementou, ainda, a utilização de luvas para manusear os livros mais valiosos ou de maior interesse histórico do seu acervo.

Segundo explicou, o ácido da transpiração pode deteriorar o papel, por isso há que ter "mil e um cuidados" quando alguém requisita esta edição rara da epopeia portuguesa, publicada três anos após o regresso do autor do Oriente.

A primeira edição de "Os Lusíadas" faz parte dos cerca de 18 mil títulos da biblioteca pessoal de José do Canto, que engloba livros do século XV ao XIX, adquiridos em Maio 1942 pela instituição.

"Trata-se de uma das mais valiosas colecções privadas, quer pela raridade das espécies bibliográficas, quer pela colecção camoniana, considera pelos especialistas a segunda a nível nacional", afirmou Francisco Silveira.

A colecção particular do bibliófilo da ilha de micaelense contém quase todas as primeiras edições de autores portugueses contemporâneos, como Alexandre Herculano, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, e alguns estrangeiros, como Darwin e Dumas (pai e filho), indicou.

Além disso, a colecção camoniana de José do Canto reúne todas as edições de "Os Lusíadas" editadas em Portugal até 1898, ano da sua morte.

"No total são cerca de 110 edições portuguesas, publicadas entre 1572 e 1892", disse Francisco Silveira, acrescentando que a colecção inclui, ainda, cerca de 105 edições estrangeiras, traduzidas em húngaro, alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, russo e japonês.

Este acervo bibliográfico de grande valor histórico foi possível reunir, ao longo dos anos, fruto dos contactos que José do Canto manteve com vários alfarrabistas em França e Inglaterra.

Para facilitar e generalizar o acesso, presencial ou não, das obras mais consultadas e de maior valor histórico, a Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada está a proceder à digitalização dos seus títulos, um serviço que deverá ser disponibilizado, parcialmente, durante este ano.

No sítio da instituição na Internet, os cibernautas vão poder, também no futuro, pesquisar o arquivo digital e ficar a conhecer as colecções particulares que compõem o acervo da biblioteca da maior cidade açoriana, que conta já com 2.850 utentes com cartão de leitor.

A Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada conta com mais de 110 mil títulos, provenientes de colecções privadas e de conventos, dos quais mais de 85 mil já foram devidamente catalogados.

"A Biblioteca Pública de Ponta Delgada está entre as quatro maiores do país devido à raridade dos títulos que dispõe", afirmou Francisco Silveira, ao destacar um livro de Fernão Lopes da Castanheda, de 1551, que conta a história dos descobrimentos e conquistas portuguesas na Índia e que não existe na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

Outra das grandes preciosidades da instituição é uma Torah antiga, que foi encontrada, há vários anos, numa gruta junto ao mar na vila de Rabo de Peixe, ilha de São Miguel, entretanto já recuperada, disse.

Trata-se de uma rara edição do livro sagrado dos judeus e depois de analisado por especialistas da Universidade Hebraica de Jerusalém, foi classificado pelo Governo Regional dos Açores como património da região.

A "Torah de Rabo de Peixe" foi escrita cerca do ano 1700 na cidade marroquina de Mogador (Essouira, na língua local), onde um século mais tarde nasceu Mimon Abohbot, um judeu que se estabeleceu em Angra do Heroísmo em 1824.

Além da colecção privada de José do Canto, a biblioteca de Ponta Delgada conta com o acervo de nomes como Ernesto do Canto, Marquês Jácome Correia, Teófilo Braga, Natália Correia, Mota Amaral, entre outros nomes.

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