Colóquio e mostra documental assinalam 30 anos da "provocadora" exposição Alternativa Zero

Um colóquio e uma mostra documental vão assinalar em Junho trinta anos da Alternativa Zero, exposição "provocadora" que marcou a sociedade portuguesa nos anos 70 e lançou artistas hoje consagrados como Helena Almeida, Fernando Calhau e Julião Sarmento.

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Intitulada "Alternativa Zero - Tendências Polémicas da Arte Contemporânea Portuguesa - 30 anos depois", a iniciativa irá decorrer entre 28 e 30 de Junho na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, com um programa de conferências, debates, uma exposição de fotografia e filmes, disse hoje à Agência Lusa o comissário.

De acordo com Paulo Pires do Vale, o evento pretende celebrar os 30 anos da Alternativa Zero (AZ) - organizada pelo criador, investigador e crítico de arte Ernesto de Sousa - e "promover uma reflexão sobre a importância do seu impacto, na época, na sociedade portuguesa e na vida dos artistas. Ao mesmo tempo, visa lançar interrogações sobre o seu sentido e actualidade".

"Ao colocarmos estas questões sobre a AZ e o papel de Ernesto de Sousa, podemos fazer - sem saudosismos - uma reflexão sobre o papel da arte nos dias de hoje", explicou o comissário, que é professor de Filosofia na Universidade Católica.

Depois de se ter apercebido de que não estavam previstas iniciativas para assinalar os trinta anos da AZ, Paulo do Vale - que sempre nutriu um grande interesse pelo trabalho de Ernesto de Sousa e pelo "período efervescente da arte que a AZ manifesta" - pediu apoio à directora do museu da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, que cedeu o espaço da entidade.

Em 1977, a exposição Alternativa Zero marcou a sociedade portuguesa pelo seu carácter provocatório, na qual participaram, entre outros artistas, Alberto Carneiro, Ernesto Melo e Castro, Noronha da Costa, Graça Pereira Coutinho, Ana Hatherly, Álvaro Lapa, Clara Menéres, Albuquerque Mendes, Leonel Moura, Jorge Peixinho, Jorge Pinheiro, Vitor Pomar, Joana Rosa, Ana Vieira, António Sena, Ângelo de Sousa, João Vieira, Pires Vieira, Palolo, e o próprio Ernesto de Sousa.

Trinta anos depois, o comissário quis reunir muitos dos artistas que estiveram na AZ em 1977 para promover debates e também convidou a viúva de Ernesto de Sousa, Isabel Alves, a colaborar na celebração, contribuindo "com a sua memória, fotografias e filmes inéditos sobre a própria exposição e o seu organizador".

Contactada pela Lusa, Isabel Alves comentou que Ernesto de Sousa, com quem viveu entre 1966 e 1988, "era uma personalidade única, de grande abertura e entusiasmo constante pelas ideias".

"Ele também era um artista, uma pessoa de grande cultura, que se interessava por todas as áreas e pensava a grande velocidade. Mal estava a acabar uma coisa e metia-se logo noutra", recordou.

Nascido em Lisboa em 1921, José Ernesto de Sousa foi o iniciador do movimento cineclubista em Portugal, dedicando toda a sua vida ao estudo das artes visuais, mas também desenvolvendo actividades nas áreas do teatro, do jornalismo, crítica e ensaio.

Devido à sua acção pioneira e muitas vezes polémica foi preso em várias ocasiões pela PIDE, a polícia do regime de Salazar, que alegava motivos político-culturais.

Sobre a época da exposição, ela "ficou marcada - disse ainda - por um trabalho de militância, com anos de muita criatividade, sobretudo devido à censura e as formas de a contornar".

Isabel Alves referiu que os trinta anos da AZ coincidem com os 15 anos da existência das Bolsas Ernesto de Sousa, q ue já permitiram a ida de outros tantos artistas da área do multimédia aos Estados Unidos como bolseiros.

"Alternativa Zero - 30 anos depois" - começa dia 28 de Junho com uma debate promovido por Delfim Sardo intitulado "Que alternativa? A importância da AZ", com a participação de artistas que estiveram na exposição naquela época.

Emília Tavares, Ernesto Melo e Castro, Luís Serpa, Margarida Medeiros, Ricardo Nicolau, Nuno Faria, Pedro Proença, Luís Silva e Dimas Pimenta são outros dos participantes do colóquio.


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