Com um bordel chamado "A Varanda", Genet sobe ao palco da Cornucópia
Lisboa, 15 nov (Lusa) -- Desenrola-se num bordel chamado "A Varanda" a ação da peça homónima de Jean Genet que a Cornucópia estreia na quinta-feira, um espaço onde as prostitutas ajudam os clientes a concretizar fantasias que espelham as relações de poder na sociedade.
Depois de "Ela", outra peça de Genet (1910-1986), o Teatro da Cornucópia regressa ao universo do dramaturgo francês, estreando em Portugal a última versão -- datada de 1968 e considerada a definitiva -- de "A Varanda", que teve várias, a primeira das quais publicada em 1956 e intitulada "Espanha".
"No princípio da peça, percebemos logo que estamos dentro de um bordel, que há uma revolução lá fora e depois começamos a ver as fantasias dos clientes do bordel, cidadãos anónimos que desejam identificar-se com os símbolos do poder: querem vestir-se de bispo, de general e de juiz", disse à Lusa o ator e encenador Luís Miguel Cintra, diretor do Teatro da Cornucópia.
"Para se sentirem mais importantes e menos anónimos, pensam que deverão vestir as vestimentas simbólicas desses três pilares do Estado. Mas o que acontece é que, quando estão no quarto de bordel vestidos assim, não assistimos à sua transformação em general, bispo e juiz, mas à sua incapacidade de se identificarem com essas personagens", acrescentou.
Esse primeiro impacto com o universo da peça, prosseguiu, faz "logo perceber que há qualquer coisa que não funciona bem entre a criação dessas imagens pré-fabricadas e de uma super-estrutura ideológica que não foi inventada pelos cidadãos, e a sua própria natureza".
"Ao mesmo tempo, vamos ouvindo rajadas de metralhadora, vai-se percebendo que há qualquer coisa de exterior ao bordel que é completamente diferente do interior, um espaço fechado em si próprio onde se podem construir imagens que podem passar a ser simbólicas, mas que são as fantasias de cada um. Há um espaço de liberdade, por mais contraditório que seja, dentro do próprio bordel", explicou o encenador.
Quando se passa para o exterior do bordel, "a coisa é mais complicada -- observou --, porque passamos a contar com o olhar dos outros e com aquilo que herdámos como forma de organização da nossa própria cabeça e com estruturas de poder. O que notamos logo é que as estruturas de poder são reproduzidas na intimidade".
Por exemplo, a diretora do bordel, Irma (Luísa Cruz), mantém com a secretária, Carmen (Beatriz Batarda), relações baseadas no poder, apontou o encenador, acrescentando que "ela, com o seu amante, que é o chefe da polícia (Dinarte Branco), também reproduz, de certa maneira, relações de poder, ou percebe-se que há uma relação com a estrutura do poder político que matou o amor entre aquelas personagens".
Para Cintra, "toda esta construção abstrata de apresentar ao público uma espécie de bordel imaginário é um processo dramático que conduz a uma espécie de desmontagem do que é todo o funcionamento da sociedade e como é que este se relaciona com a existência de indivíduos que são pessoas únicas", o que "torna a peça muito interessante" e de "uma imensa atualidade", porque "tudo é tratado de uma forma extremamente lúdica no espetáculo, que é construído como um jogo".
"A ideia do Genet é inventar dentro do próprio teatro uma relação com o espectador que não seja uma relação de poder, como a que assistimos na maior parte dos espetáculos. O que ele quer é um espetáculo que exija atividade do espectador, que esteja constantemente a inquietá-lo, que seja uma relação de trabalho em conjunto, de provocação mútua. Há uma provocação que o espetáculo faz ao espectador que a mim me agrada muito", admitiu.
"A começar pela própria duração do espetáculo: a quem é que passa pela cabeça fazer um espetáculo de quatro horas atualmente? Nós ousamos fazer isso também por respeito pelo espectador", sustentou.
E depois, dirigindo-se diretamente aos espectadores: "Vocês têm o direito de escolher virem cá se quiserem. Porque se quiserem assistir a um espetáculo de quatro horas, não existe, ninguém vos dá, porque acham que vocês não querem. Se calhar, há umas pessoas que querem... e que até se sentem muito aliviadas de não terem de pensar em chatices e não estarem a ver televisão durante quatro horas, porque estão quatro horas regaladas a ver atores representar muito bem. Tem de se dar também essa liberdade ao espectador".
"Nós assumimos o risco, e o espectador tem essa liberdade. Vamos lá ver o que acontece", comentou Luís Miguel Cintra.
A peça estará em cena no Teatro do Bairro Alto, sede da Cornucópia, até 18 de dezembro, de terça-feira a sábado às 20:30 e ao domingo às 16:00.