Como começou a guerra civil grega

Ainda a Segunda Guerra Mundial não tinha terminado, e já o Governo de Londres fazia desembarcar tropas suas na Grécia, para impedir que tomasse o poder uma resistência fortemente influenciada pelos comunistas. A resistência rapidamente derrotou a intervenção britânica, mas recebeu ordens de Moscovo para aceitar o regresso do rei. A trégua durou pouco e em breve deu lugar a uma guerra civil que se arrastou por três anos.

RTP /
Aris Velouchiotis (segundo a contar da esq.), o dirigente comunista da resistência grega DR

A Grécia, hoje em polvorosa devido à aprovação das condições para os acordos de resgate, tem uma longa história de confrontos armados que, na fase final da Segunda Guerra Mundial e no imediato pós-guerra, se traduziram mesmo em duas guerras civis. A segunda durou tanto como a Guerra Civil espanhola e, na proporção da população grega, foi igualmente mortífera.

O movimento de resistência à ocupação nazi contava, na Grécia, com componentes comparáveis às da resistência jugoslava: uma direcção em grande parte comunista e, por outro lado, forças da direita nacionalista com autonomia militar, que conduziam as suas próprias campanhas paralelamente aos comunistas, ocasionalmente em choque com estes e, em certos casos, passando directamente ao colaboracionismo com os ocupantes.

No entanto, a atitude dos Aliados em relação a essas várias componentes não foi a mesma em todo o lado. Na Jugoslávia, os Aliados ocidentais retiraram a certa altura o apoio aos nacionalistas e resignaram-se a aceitar uma hegemonia titista na resistência. Na Grécia, pelo contrário, Churchill quis sempre garantias de que os comunistas não teriam um papel dirigente no pós-guerra. E, a certa altura, obteve de Estaline essas garantias.
O primeiro braço de ferro O desembarque de tropas britânicas, em outubro de 1944, na Grécia dirigiu-se contra a frente política da resistência (EAM) e contra o seu braço militar (ELAS), porque estes tinham ganho demasiado peso na vida política do país - correspondente, afinal, ao seu indiscutido protagonismo na resistência. Exercitada numa dura guerra contra o nazismo e apetrechada com armamento que lhe tinha apreendido, a resistência rapidamente ganhou um controlo do território superior ao da tropa britânica invasora e aos seus débeis apoiantes locais.

O desfecho, mais ou menos empatado, dessa primeira prova de força, deveu-se á intervenção da direcção soviética, então ainda apostada em manter um bom relacionamento com os Aliados ocidentais. Estaline determinou que o ELAS aceitasse o regresso do rei e assinasse o acrodo de Várkiza, em fevereiro de 1945, apontando à realização de eleições que só podiam soçobrar no meio da violência generalizada.

O dirigente comunista do EAM, Aris Velouchiotis, opôs-se aos acordos impostos pela direcção soviética, mas em breve foi assassinado - sem que se tenha chegado a apurar se por obra das milícias fascistas ou de agentes estalinistas.
A guerra civil O predomínio da extrema-direita, apoiada pela intervenção britânica, nas grandes cidades, levou uma parte da resistência comunista a reagrupar-se em zonas libertadas no interior do país, agora sob o comando de Markos Vafiádis, o general comunista que sucedera a Velouchiotis.

A nova direcção comunista, já com a Guerra Fria em pano de fundo, retomou o combate desde 1946 e estabeleceu um Governo próprio a partir de 1947, controlando uma parte substancial do território, a chamada República de Konitza: o interior do Epiro, a maior parte da Macedónia ocidental e central, bem como a Tessália. Recebia apoio dos Governos da Jugoslávia e da Bulgária e, em menor medida, da União Soviética.

Em 1948, a ruptura entre a Jugoslávia e a URSS levou a uma interupção abrupta do apoio concedido ao exército de Markos. A Bulgária passou a aceitar apenas que cruzassem a fronteira combatentes que tivessem deposto as armas e a Jugoslávia interrompeu os fornecimentos ao exército comunista considerado pró-soviético. Na batalha de Grammos, Macedónia, o exército comunista foi finalmente derrotado, em 1949.

A segunda guerra civil tinha durado, como a de Espanha, três anos. Tinha feito cerca de 150 mil vítimas. A invasão britânica que tivera a veleidade de fazer pender rapidamente a balança para o lado dos monárquicos e da direita dera lugar a um conflito devastador.




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