Companhia de Teatro de Almada estreia "Tio Vânia", de Howard Barker

Lisboa, 25 Mar (Lusa) - A Companhia de Teatro de Almada estreia sexta-feira a peça "Tio Vânia", do dramaturgo britânico Howard Barker, inspirada na famosa obra com o mesmo nome de Tchekhov, com encenação de Rogério de Carvalho.

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

É a primeira vez que é apresentado em Portugal este texto de Barker, um dos mais polémicos e prolíficos dramaturgos britânicos contemporâneos, que se celebrizou pela criação do conceito de "teatro da catástrofe", uma estética que desenvolve em todas as suas peças.

Neste "Tio Vânia", escrito em 1991 e livremente inspirado na obra de Tchekhov (1860-1904), as personagens reclamam o direito de exercer a sua vontade e de se libertarem de um criador que as asfixia, subtraindo-se, assim, à paralisia a que este as condenou.

Presente no texto original do dramaturgo russo, a fatalidade do destino destas personagens é totalmente destruída na versão de Barker, em que as personagens exteriorizam as pulsões de amor e de morte até então inibidas.

O dramaturgo apodera-se, neste texto, de um mito literário para manifestar a sua visão sobre o teatro da condição humana.

Nascido em 1946 em Dulwich, nos arredores de Londres, Howard Barker é autor de mais de 50 peças de teatro e é também pintor, poeta, encenador e autor de textos de teoria teatral.

Manteve, durante algum tempo, uma ligação ao movimento de teatro político do Royal Court de Londres, com Edward Bond e David Edgar, e fundou depois a sua própria companhia, a Wrestling School, com um grupo de actores e encenadores amigos, com o objectivo de produzir exclusivamente as suas peças.

Com Brecht e Shakespeare como principais influências, a dramaturgia de Barker pretende criar uma concepção moderna da tragédia, em que sejam expressas a complexidade dos seres humanos e as formas que estes encontram para lutarem contra os movimentos da História e os valores morais dominantes.

A expressão "teatro da catástrofe", criada por Barker para descrever a sua obra - que geralmente gira em torno de temas como a violência, a sexualidade, o desejo de poder e as motivações humanas - prende-se com a rejeição da ideia de que o público deve reagir de igual forma ao que acontece em cena.

Barker tenta, com as suas peças, fragmentar as respostas dos espectadores, confrontando individualmente cada um deles com o que se passa no palco.

"Temos de ultrapassar a urgência de fazer as coisas em uníssono (...) Cantar em conjunto, murmurar em conjunto melodias banais, não é sinónimo de colectividade", sustenta o dramaturgo, que, ao contrário de outros que tentam clarificar as cenas, procura torná-las mais complexas, ambíguas e instáveis.

Barker opõe-se à predominância da comédia na cultura contemporânea, que unifica a sociedade através da banalidade em que consistem as respostas partilhadas, e luta pelo renascimento de um teatro trágico, que obrigue o público a reconhecer as suas diferenças.

O autor defende que só através de uma renascença trágica é que a beleza e a poesia poderão regressar aos palcos.

"A tragédia liberta a linguagem da banalidade. Faz com que a poesia regresse ao discurso", assegura.

Rogério de Carvalho, que já encenou, no Porto, dois textos do autor - "Limites/Possibilidades" (em 1998) e "Mãos Mortas" (em 2006) - dirige nesta peça um elenco formado por Elmano Sancho, Marques d`Arede, Teresa Mónica, Bernardo de Almeida, Laura Barbeiro, Laurinda Chiungue, Miguel Sopas, Paula Garcia e Wagner Borges.

O espectáculo estará em cena até 20 de Abril no Teatro Municipal de Almada, de quarta-feira a sábado às 21:30 e domingo às 16:00.

ANC.


PUB