Compositor cabo-verdiano Vasco Martins e a "busca" da Nona Sinfonia
**Fernando Peixeiro, da Agência Lusa**
Mindelo, 22 Jul (Lusa) - Vasco Martins trocou Mindelo por uma casa isolada num vale da ilha cabo-verdiana de S. Vicente, onde o vento, as nuvens e as sombras inspiram uma obra que já vai em nove sinfonias, dezenas de outras composições e até uma opera.
Nascido em Portugal, filho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa, vive desde os nove anos na ilha de S. Vicente, depois de uma passagem por França, à volta de dois pianos e agora da mística do vale, enquanto não viaja para o Tibete e para a Índia, um dos seus sonhos.
"É o meu lado espiritual, sempre senti essa atracção desde a adolescência, tem a ver com o Budismo, o Hinduísmo. Quero ir. A tendência é dizer que tudo está visto e depois consumimos na televisão. A experiência tem de ser feita através da observação".
É esse lado espiritual que o compositor, pianista e poeta encontra em Cabo Verde. "A bruma do Monte Verde, o nascer e o pôr do sol, estas montanhas, o deserto, as matizes dos castanhos, do céu, a natureza, as nuvens e as sombras", cita como exemplos de inspiração para parte das suas óperas, já tocadas um pouco por toda a parte.
Embora tendo vivido a adolescência junto da família paterna, no Mindelo, Vasco Martins voltou a Portugal para estudar música (com o compositor Fernando Lopes Graça), seguindo depois para Paris, onde foi aluno do compositor e chefe de orquestra Henri-Claude Fantapié.
"Cansei-me de Paris, as minhas obras já tinham começado a ser tocadas lá e tive propostas para ensinar, mas vim porque foi um apelo. Comecei a enfastiar-me das modernices de Paris e comecei a querer o meu caminho, com espaço e tempo para reflectir", justifica.
Desde 1985 (então com 29 anos) definitivamente em Cabo Verde, Vasco Martins dedicou-se a compor, a investigar e estudar música e ritmos e confessa hoje que não está nada arrependido, porque sem Cabo Verde a sua música seria outra, ainda que, hoje, com 52 anos, não se importasse de ficar mais tempo na Europa, de preferência em França. "Queria seguir as minhas obras".
Ainda que o "retiro" em Cabo Verde prejudicasse a divulgação do seu trabalho na Europa, é dele que Vasco Martins vive, compondo actualmente a nona sinfonia, a única que, diz, não vai ter nome.
"A sinfonia é um acto de fé, o que o músico põe lá dentro é o conteúdo da sua alma", afiança, explicando depois que é a manhã a sua fase mais criativa, guardando as tardes para vaguear e as noites para meditar e ler.
Único compositor de música sinfónica em Cabo Verde (mais de 30 peças), Vasco Martins costuma dizer que está ligado à música desde que nasceu, em Queluz, na rua Scarlatti, um músico italiano radicado na corte portuguesa de D. João V.
Aos 20 anos tocava num grupo mas cansou-se de "tocar em bailes" e disse que ia compor sinfonias. Na altura, não acreditaram, conta agora, entre risos.
"Na altura já tinha começado a compor algumas peças de piano, algumas sonatas. E ouvia muito Stravinsky, Beethoven e Debussy. O meu pai também tinha Wagner e o meu tio tinha um gramofone e eu ouvia muita ópera, de Puccini e de Verdi. Além disso, as minhas tias eram professoras de piano e foi com elas que dei os primeiros passos como pianista", recorda.
Mas diz também o músico que em Cabo Verde nunca foi fácil a sua profissão, sendo dos poucos no arquipélago que vivem dela apenas, tendo já editado 22 discos.
Cabo Verde, diz, é "um bom poiso no Universo para a criação" mas na "pós-criação é que a problemática começa", porque não há uma orquestra nem uma "vida cultural metropolitana".
"A música aqui resume-se um pouco a hotéis e restaurantes. Isso não suporto. E os músicos aqui não dão concertos porque o público não vai, ao contrário do que acontecia antes dos anos 90", lamenta, como lamenta que nunca tivesse havido mercado local para a música que cria.
"O Cabo Verde actual está virado para a construção, para a dinâmica do dinheiro e do progresso material, pondo de lado o progresso espiritual, onde a arte e a música se incluem. É um período obscuro para um artista", diz.
E dá um exemplo: a Finlândia, um país riquíssimo, tem uma Fundação para a Promoção da Música. Porque não Cabo Verde, um país pobre mas que tem uma riqueza incomensurável que é a sua música?
E logo dá a resposta: "Cabo Verde está virado para o dinheiro. Concordo mas não chega. Devia haver um caminho paralelo para as artes".
Ainda assim, é ali, num vale com palmeiras rodeado de montes, onde as nuvens passam baixo quando os sobem, alguns girassóis e uma rede debaixo de um tamarindo, que Vasco passa os dias, criando a sua nona sinfonia.
Isolado, ligado ao mundo durante alguns anos através da Internet mas agora nem isso, porque os computadores o cansam e um vírus informático serviu de desculpa para os arrumar de vez.
Mas é assim que é feliz e assim quer viver. Intensamente. Porque "quando um homem tem algo a fazer que o faça com todas as suas forças".