Cultura
Cooperação entre Egito e Japão para restaurar Pirâmide de Miquerinos gera críticas
A missão arqueológica egípcio-japonesa de restauro da Pirâmide de Miquerinos iniciou um projeto para documentar e recriar os blocos de granito que outrora constituíam o revestimento exterior e desmoronaram com o tempo. O objetivo é recolocar parte da cobertura da pirâmide localizada em Gizé. A intervenção está a desencadear uma onda de críticas entre arqueólogos, que argumentam estar a minar a autenticidade dos monumentos.
A Pirâmide de Miquerinos remonta ao século 26 a.C. Terá sido construída para servir de túmulo do faraó egípcio Miquerinos, filho de Quéfren e quinto soberano da Quarta Dinastia.
Com cerca de 65 metros de altura, é a mais pequena das três principais pirâmides do planalto de Gizé e fica ao lado da esfinge e das pirâmides maiores de Quéfren e Quéops.
Originalmente estava revestida de granito, mas com o tempo o monumento perdeu a cobertura.
Os trabalhos que começaram agora visam estudar, documentar e restaurar blocos de granito, recolocando fiadas para revestir a pirâmide.
Está previsto que as obras durem três anos. Foram anunciadas como “um presente do Egito para o mundo no século XXI”, aclamou Mostafa Waziri, chefe do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, que chefia a equipa egípcio-japonesa responsável pelo projeto.
A cobertura externa da pirâmide era "originalmente composta por 16 fiadas de blocos de granito, das quais restam atualmente apenas cinco ou seis", explicou.
Waziri reitera que este é o “projeto do século”. Argumenta que a Pirâmide de Miquerinos, com mais de 4.500 anos, sofreu alguma destruição no passado, com a queda dos blocos de pedra exteriores provavelmente devido a um terramoto.
Arqueólogos japoneses verificam pedras na base da Pirâmide de Miquerinos | Khaled Elfiqi - EPA
Os planos para o restauro incluem o uso de tecnologia de imagem digital para recriar os blocos de pedra, garantindo uma integração perfeita do novo invólucro, observa Waziri.
Para a recolocação das pedras nos sítios originais, a parceria egípcia e japonesa irá contribuir com trabalhos de desenho, fotogrametria, documentação e digitalização a laser, que culminará com a reinstalação dos blocos de granito.
“O Japão cobrirá todos os custos do projeto”, demonstrando um excelente exemplo de cooperação internacional para a preservação de marcos culturais, sublinha Waziri, em conjunto com a equipa de arqueólogos do Japão que é liderada por Sakuji Yoshimura, presidente da Universidade Internacional Higashi Nippon.
"Totalmente não científico"
A notícia desencadeou um conjunto de críticas ao projeto. A renovação de Miquerinos, com a adição de blocos de granito, gerou polémica. Os especialistas traçam mesmo uma comparação com a possibilidade de a “Torre de Pisa italiana ser endireitada".
Para um grupo de arqueólogos como Monica Hanna, egiptóloga da Academia Árabe de Ciência, Tecnologia e Transporte Marítimo, a intervenção é “totalmente não científica”. A especialista acusou aqueles que estão por trás o projeto de insistirem na "publicidade em detrimento de investigações arqueológicas legítimas". Vincou ainda que a "documentação não pode ocorrer ao mesmo tempo que a escavação mostrada no vídeo".
Em tom irónico, Hanna comentou: "A única coisa que faltou foi adicionar azulejos à pirâmide de Miquerinos. Quando é que vamos acabar com o absurdo na gestão do património egípcio?".
“Todos os princípios internacionais sobre renovações proíbem este tipo de intervenções”, acrescentou, apelando a todos os arqueólogos para “se mobilizarem imediatamente”.
Prosseguir com o projeto “equivale a adulterar as antiguidades egípcias e minar a sua autenticidade e história”, afirmou o comunicado assinado por Monica e outros investigadores.
Kathlyn Cooney, professora de arte e arquitetura egípcia na UCLA, coloca a ênfase na diferença entre a "conservação, que preserva um objeto no estado em que se encontra, e restauro, que melhora, muda, embeleza - deve ser evitado a todo custo”.
Outras vozes aplaudem o projeto, como o arqueólogo Ahmed Mohammadi: “Observamos representações da Pirâmide de Miquerinos em desenhos e inscrições antigas e estas diferem de seu estado atual. Este projeto irá restaurá-la ao seu estado original, tal como foi construída pelos antigos egípcios”.
Embora a pirâmide de Miquerinos faça parte do Património Mundial da UNESCO, a organização reagiu afirmando que não tinha conhecimento do projeto mas já “escreveu às autoridades egípcias para lhes pedir mais informações”.
Complexo arqueológico de Gizé | Khaled Elfiqi - EPA
Miquerinos é uma das pirâmides menos conhecidas, mas não menos importante no grande complexo da história do Egito, explica a equipa que pretende coincidir momentos significativos do restauro com a inauguração do Grande Museu Egípcio, previsto para segunda metade de 2024. Afirma que "pela primeira vez será possivel a visualização completa” da pirâmide nos tempos modernos.