"Coração sem medo" de Itamar Vieira Junior chega a Portugal para "esperançar"
O escritor brasileiro Itamar Vieira Junior estará no final de fevereiro em Portugal para apresentar o seu novo romance "Coração Sem Medo" confiante na literatura que caminha "na contramão dum mundo avesso a respeitar a diferença".
Editado pela Dom Quixote, "Coração Sem Medo" chega hoje às livrarias e o escritor virá a Portugal para o apresentar no Festival Correntes d`Escritas, que decorre entre os dias 25 e 28 de fevereiro na Póvoa do Varzim.
Em declarações à Lusa, a partir de Brasília, onde está de férias com a família, Itamar Vieira Junior não escondeu a "preocupação" perante o resultado da primeira volta das eleições presidenciais em Portugal: "Eu acompanhei as eleições em Portugal com grande preocupação, porque já tivemos isso no Brasil".
"Portugal viveu um período de grande prosperidade após o 25 de Abril, vimos um país a se educar, a crescer, a florescer, mas a democracia é imperfeita, não resolve todas as desigualdades e é aí que surgem os oportunistas", afirmou o escritor, refletindo sobre o crescimento da extrema-direita: "as grandes corporações tecnológicas criaram esse caldo que empurra para militar nos extremos", mas a democracia "é insubstituível porque não há outra forma de decidir".
O escritor brasileiro recordou os Governos de Jair Bolsonaro (2018-2022) como "um retrocesso que deve ser combatido" - "para não repetirmos o que nos dividiu" -, e é com base nesse passado tão recente que observa as eleições presidenciais como "um momento crucial para Portugal".
Ora, a literatura, disse o autor, tem a capacidade de ajudar "a pensar, a refletir".
"Um mundo que celebra a incapacidade de coabitar com a diferença, é um mundo desumano. A literatura vai na contramão disso. Ler sobre o diferente para compreender a profundidade da humanidade", disse também a propósito do seu mais recente romance.
"Coração sem Medo" encerra a trilogia iniciada com "Torto Arado" e "Salvar o Fogo", e persegue a história dos desfavorecidos e da disputa de território, desta vez saindo do interior para a cidade (Salvador, capital do estado da Bahia).
Sobre o coração que dá nome ao livro, reflete: "Esse é um coração que atravessa a história da humanidade. O drama dessa personagem (Rita Preta) é o drama de muitas mulheres no Brasil, e de muitas mulheres em muitos outros lugares do mundo. Manter o coração sem medo de viver, de seguir em frente, é uma grande virtude".
E assumiu que procurou "retratar uma mulher simples, querendo o mais básico que há".
Uma personagem que revela a sua forma de pensar o mundo: "aproveita a vida, gosta de beber, de namorar, e vê o seu presente interrompido pelo desaparecimento dum filho. A história dela é a história dos que viveram antes dela nessa jornada em busca do filho, de que não desistirá".
Mais uma vez, o autor aborda temas como a violência e a desigualdade racial, que persistem e atravessam a sociedade brasileira.
"Acredito que a raiz está na História e a experiência da colonização moldou a nossa forma de ser. Viver explorando o outro, essa é a fonte da nossa desigualdade, porque a escravidão, tão profunda e por tanto tempo, deixou marcas que permanecem, mais de um século depois".
"Ainda não conseguimos desconstruir a exploração racial dos negros indígenas e mestiços. Ainda não conseguimos reparar, e essa é a fonte da violência, muitas vezes por parte do Estado", afirmou.
Sobre a possibilidade de um novo prémio Jabuti, já que os dois anteriores romances da trilogia venceram o mais importante prémio da literatura brasileira, Itamar Vieira Junior não antecipa expectativas: "A literatura brasileira é pujante, e para mim o grande prémio continua a ser encontrar os leitores".
Vencedor dos prémios Leya, Oceanos e Jabuti, Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, na Bahia. É geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos e o seu romance de estreia, "Torto Arado" (2019), é um dos maiores sucessos da literatura brasileira das últimas décadas.