Correntes d`Escritas - Mia Couto e valter hugo mãe consideram vital espontaneidade das crianças

Ana Nunes Cordeiro, Agência Lusa

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Póvoa de Varzim, 14 Fev (Lusa) - Os escritores Mia Couto e valter hugo mãe classificaram hoje como vital a espontaneidade e a honestidade às vezes cruel das crianças, depois de um encontro com os alunos da escola do ensino básico, na Póvoa de Varzim.

"Gostei muito desta experiência. Acho que as crianças têm sempre uma grande espontaneidade, fazem as perguntas de uma forma directa, muito simples, que nos responsabiliza sempre em relação àquilo que fazemos", disse valter hugo mãe à Lusa no final do encontro realizado no auditório da escola Dr Flávio Guimarães, sobrelotado de alunos com idades entre 10 e 15 anos que bombardearam os dois escritores com perguntas.

"Existe neles uma honestidade tão grande que pode ser, por vezes, cruel, por esse desnudamento tão grande daquilo que nós fazemos. Mas eu gosto disso, porque acho que, em última análise, aquilo que faço resulta sempre em algo provocador e, por isso, tenho de aceitar que me provoquem também. E os miúdos são excelentes a provocar os adultos", comentou o escritor, que recentemente venceu o Prémio Saramago com o seu primeiro romance, "O Remorso de Baltazar Serapião".

No final da visita, efectuada no âmbito da 9ª edição do Correntes d`Escritas, que até sábado reúne mais de 60 escritores de expressão ibérica na Póvoa de Varzim, o escritor moçambicano Mia Couto disse à Lusa: "Levo muito desta experiência".

"As crianças são leitores muito mais exigentes do que pensamos. Nós temos uma certa tentação de menorizá-las enquanto leitores, infantilizar este tipo de público e depois constata-se que as perguntas que colocam não são propriamente feitas de encomenda, são perguntas que nasceram de dentro deles. E isso é uma lição importante", frisou.

"As perguntas que as crianças fazem são muito mais honestas, muito mais espontâneas do que as que fazem os adultos e um escritor tem de ter essa fonte de espontaneidade, senão transforma-se ele próprio num personagem", observou o escritor moçambicano.

Um menino perguntou-lhe por que "entorta" as palavras e ele respondeu, prontamente, que é porque "às vezes, as palavras tortas são mais bonitas".

"Às vezes, é preciso entortá-las um bocadinho para dizer o que eu quero", acrescentou.

Autor de várias obras infantis, Mia Couto afirmou, contudo, que não acredita nessa rotulação, porque todas as histórias que conta têm como base a sua infância e são para a criança que nele vive.

"Essa coisa de se dizer que escrevo para crianças... a gente escreve sempre para um lado de criança que tem dentro de nós", sustentou.

"Ensinam às crianças que as histórias são só para crianças, mas toda a gente precisa de histórias. A razão pela qual eu sou uma pessoa feliz - prosseguiu - é porque sou capaz de contar histórias. Toda a gente é, toda a gente tem a capacidade dentro de si de construir histórias, pequenas histórias".

Em seguida, contou que, quando tinha 17 anos, "Moçambique estava numa grande revolução e havia um homem chamado Samora Machel".

"Eu queria conhecê-lo e queria que ele gostasse de mim e, então, eu e os meus amigos decorávamos frases dos discursos dele e dissemos-lhas quando o conhecemos", recordou.

Samora Machel perguntou então se algum deles sabia cantar uma canção e eles não sabiam - "ou tinham vergonha", acrescentou - ou se algum sabia contar uma história, ao que eles responderam também negativamente.

"Então, ele disse: `Quem não sabe contar uma história é uma pessoa pobre", concluiu Mia Couto.

Depois, defendeu que, na maioria dos casos, "os escritores não sabem falar com crianças, perguntam "aquelas coisas: `como te chamas?`, `quantos anos tens?` e `andas na escola?`".

Uma vez, foi fazer uma sessão de lançamento da obra "O Gato e o Escuro" a uma escola e, à porta, estava um menino com o pai, que lhe pediu para assinar o livro do filho, porque ele tinha aulas muito cedo no dia seguinte e não podia ficar para a apresentação.

Às tais perguntas do costume, o miúdo foi-lhe respondendo, "com um ar um bocado chateado", mas, segundo o escritor, só conseguiu realmente comunicar com ele quando lhe perguntou, a propósito do livro, que ele já tinha lido, "E tens medos?".

Respondeu que sim e devolveu-lhe a pergunta, à qual Mia Couto deu também resposta afirmativa.

"`Mas olha, não tenhas medo, porque o medo é só aquilo que lhe pomos dentro`, disse-me o miúdo, citando uma frase do livro como se fosse sua. E esse é o melhor prémio que eu tive. Quase lhe pedi a ele um autógrafo", rematou o escritor.

ANC.


PUB