Crítica a romance de José Saramago na revista The New Yorker
Lisboa, 22 Out (Lusa) - Uma crítica ao romance de José Saramago "As Intermitências da Morte" ("Death with Interruptions") foi publicada na edição electrónica desta semana da revista norte-americana The New Yorker.
Intitulada "Death takes a holiday" ("A morte tira umas férias"), a recensão, da autoria de James Wood, é acompanhada de uma ilustração feita por Ana Juan em que o Nobel da Literatura português tem pousada sobre o ombro a mão de um esqueleto que espreita por trás dele, simbolizando a morte.
O texto de três páginas começa por citar o filósofo moralista inglês Bernard Williams, que defendeu numa das suas obras, "The Makropulos Case", que a vida eterna seria tão entediante que ninguém conseguiria suportá-la.
É por essa razão que na peça de teatro de Karel Capek a que Williams foi buscar o seu título, Elina Makropulos, de 342 anos, tendo bebido o elixir da vida eterna desde os 42 anos, opta por deixar de tomá-lo e morre.
Resumindo, a tese de Williams é a de que a vida precisa da morte para fazer sentido - a morte é apresentada como o período negro que ordena a sintaxe da vida.
"Em `Death with Interruptions` (traduzido do português por Margarida Jull Costa e editado pela Harcourt, 24 dólares), José Saramago, um escritor cujas longas, ininterruptas frases são relativamente estranhas ao ponto final, produziu um romance que funciona como uma experiência pensada no universo de Capek/Williams", sustenta James Wood, acrescentando, no entanto, que o romance "não faz referência explícita a qualquer deles".
Depois de fazer um resumo da história contada no romance, o crítico da New Yorker diz que "Death with Interruptions" é "uma pequenina, deliciosa parcela a adicionar à obra de um grande romancista".
"Algumas das obras mais significativas dos últimos 30 anos têm retirado prazer da utilização da frase longa e sem regras - pensem em Thomas Bernhard, Bohumil Hrabal, W.G. Sebald, Roberto Bolaño - mas ninguém soa como Saramago", escreve Wood.
"Ele tem a capacidade de parecer sábio e ignorante ao mesmo tempo, como se não estivesse realmente a narrar as histórias que narra", observa o autor da recensão, referindo-se a "As Intermitências da Morte" mas evidenciando um conhecimento aprofundado da totalidade da obra de Saramago traduzida para língua inglesa.