Curador do Museu do Amanhã nota forma de viver em extinção e apela à imaginação de novos futuros
O curador do Museu do Amanhã, no Brasil, afirmou hoje que a atual forma de viver "está em franca extinção", defendendo que se tem de recuperar a imaginação -- também ela em crise -- para se criarem futuros diferentes.
O ecólogo Fábio Scarano, responsável pela curadoria do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, falou hoje na conferência internacional Shaping Ecological Futures, organizada pela Direção-Geral das Artes (DGArtes) e pela Universidade de Coimbra, que decorre entre hoje e quarta-feira, no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), em Coimbra.
Cruzando a arte e a atual crise climática, o curador do Museu do Amanhã juntou os conceitos de inferno, purgatório e paraíso, presentes na "Divida Comédia", de Dante, para contar uma "breve história do colapso", procurando mostrar onde está hoje o ser humano e como chegou até ao presente.
Para isso, Fábio Scarano fez um diagnóstico da sociedade contemporânea, considerando-a alienada, desencantada e fragmentada, com as pessoas atomizadas. "Isso é o nosso inferno", notou, a que se junta o "inferno climático em curso".
Face a uma modernidade que fragmentou "o todo em partes", que dividiu o tempo, separou os espaços e criou hierarquias, o ecólogo entendeu que é preciso passar por uma espécie de purgatório, em que se regenere "das fraturas que a modernidade criou no todo".
Essa regeneração, defendeu, terá de passar pela reparação das relações entre seres e entre sistemas, considerando que reconhecer o ponto a que se chegou não significa a assunção de um fim, mas de "um compromisso com um novo começo".
Nesse campo, Fábio Scarano considerou que é preciso recuperar a imaginação e repensar metas, apontando para o caso dos objetivos de desenvolvimento sustentável, onde a arte e a cultura não estão presentes, que estão presos a uma visão do mundo "moderna liberal".
Sobre a dificuldade de imaginar, o curador do Museu do Amanhã apontou a obra "A Saída da Ópera do ano 2000", de Albert Robida, do final do século XIX, em que o artista francês consegue imaginar carros voadores, mas mantém os ricos como aqueles que continuam a ir à ópera.
"Não consegue imaginar um futuro sem estratificação social. Ele tem imaginação, mas a imaginação vai até ao carro voador", constatou.
Para Fábio Scarano, é necessário imaginar outras formas de organização social para se poder ter futuros diferentes, num mundo que vive em torno da produtividade, da velocidade e do consumo.
Nesse exercício de imaginação, o problema, vincou, não será a tecnologia, mas o que se faz com ela.
"Há tecnologia disponível para trabalhar menos, mas o que é que fizemos nos últimos 100 anos? Trabalhámos mais. O problema é da tecnologia ou é nosso? É do nosso imaginário?", questionou.
Ainda nesse purgatório, o especialista considerou que é preciso recuperar a memória, a atenção e a antecipação.
"Uma sociedade com pouca memória, de baixíssima atenção e que antecipa mal não vai longe. A nossa espécie não se vai extinguir, mas a nossa forma de viver está em franca extinção. Está a colapsar", disse.
E, perante um mundo que se desfaz, Fábio Scarano considerou que é preciso erguer um outro, apontando para "um papel imenso" que a arte e a cultura podem ter aí.
O paraíso, defendeu, não será um novo lugar, mas sim o caminho à procura de um novo começo, que recupere a utopia, não como "algo que emerge, mas um estado".
"O paraíso é um caminho. Se é um caminho, já o habita, ainda que tenha inferno e purgatório lá", afirmou, acreditando que o mundo está hoje num "estado máximo de fragmentação" que poderá originar "um novo momento de reconstrução".