D. Maria II estreia "Menina Júlia", de Strindberg, um clássico da literatura dramática
Lisboa, 14 Abr (Lusa) - Comédia, tragédia, luta de classes, luta de sexos, tudo está em "Menina Júlia", de Strindberg, um texto clássico da literatura dramática universal que o Teatro Nacional D. Maria II estreia quinta-feira, numa encenação de Rui Mendes.
A escolha desta peça foi ditada pela sua actualidade, que "é a qualidade dos grandes textos", disse Rui Mendes, frisando que o dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) "é um dos iniciadores de uma coisa a que se veio a chamar o teatro moderno (...), de uma nova forma de escrever teatro".
A actualidade da obra de Strindberg, a par da de Ibsen e Tchekhov, reside, indicou o encenador, no facto de ter rejeitado "a ideia de as personagens serem muito monolíticas, tipificadas", por exemplo, como as de Molière, que "são excelentes, mas são muito monolíticas, não têm altos e baixos".
Nesta peça, as personagens "são muito instáveis", observou: oscilam entre o desejo, recalcamentos e sentimentos de atracção e repulsa, o que desencadeia e alimenta conflitos de poder e humilhações várias, no âmbito de um violento choque de classes sociais e sexos.
A menina Júlia (interpretada por Beatriz Batarda) é a filha de um conde que, pouco depois de anunciar o fim da relação com o noivo, decide não acompanhar o pai numa visita social e passar a noite de S. João na sua propriedade, na companhia dos criados, que festejam, com um baile, a noite mais curta do ano.
Inicia, então, uma relação condenada com o criado de seu pai, João (Albano Jerónimo), que tem, por sua vez, uma relação com a cozinheira da casa, Cristina (Isabel Abreu).
"Esta peça é de 1888, portanto, finais do século XIX, em que as lutas sociais, as lutas pela libertação da mulher, a análise dos comportamentos (com Freud) e da `alma`, chamemos-lhe assim, se intensificam. É uma época de transformações extraordinárias", sustentou o encenador.
Em Portugal, "Menina Júlia" subiu pela primeira vez ao palco em 1960, precisamente no Teatro Nacional D. Maria II, pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, com encenação e interpretação de Jacinto Ramos, Lourdes Norberto e Helena Félix.
Quarenta e nove anos depois da estreia em Portugal, esta é a 14ª encenação de "Menina Júlia" e tem por base uma nova tradução da peça, feita por Augusto Sobral.
Por vezes acusado de não fazer encenações muito "arrojadas", Rui Mendes defende-se afirmando que gosta de "deixar o texto fluir" e de que os actores interpretem as respectivas personagens como as sentem, não os contrariando, até porque acha que isso "nunca dá bom resultado".
Com música original e direcção musical de Rui Rebelo e cenografia de Manuel Amado e Ana Paula Rocha, também responsável pelos figurinos da peça, esta "Menina Júlia" estará em cena na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II até 24 de Maio, de quarta-feira a sábado às 21:30 e domingo às 16:00.
ANC.