Dança afrobrasileira é mantida por descendentes de escravos
O jongo, dança afro-brasileira nascida nas senzalas das fazendas de café do sudeste brasileiro, hoje é mantido por descendentes de escravos, que conservam a memória dos antepassados com a música e a dança.
A dança é embalada por tambores e canto, e realizada no centro de uma roda, um par de cada vez. As mulheres vestem uma saia longa e os homens calça comprida. Com um passo ritmado por pés descalços, ao som da percussão, os dançarinos aproximam-se e afastam-se.
O que atualmente é diversão e cultura, há mais de cem anos era uma forma de os escravos retirados de territórios onde hoje são Angola, Congo e Moçambique de comunicarem entre si e professarem sua religião sem serem descobertos, por meio de linguagens cifradas, segundo jongueiros.
A poesia metafórica do jongo lembra o quotidiano de um tempo de dor. "No dia 13 de maio/cativeiro acabou/e os escravos gritavam/liberdade senhor", diz uma música, que se refere à abolição da escravidão, em 1888. "Levanta negro, quero ver seu corpo inteiro/Quero ver se tu tens marca do tempo de cativeiro", entoa outra.
Os versos são cantados por um solista, e depois acompanhados pelo coro que está na roda. O jongo no Brasil é considerado património imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e, atualmente, é mantido em 40 comunidades nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, principalmente em áreas rurais ou periferias urbanas.
O "meu avô tinha oito filhos e todos gostavam de jongo. Eles foram constituindo família, que também foi gostando, e todos foram se apropriando. (...) Aprendi com meus antepassados, já passei para os meus filhos e estou passando para meus netos", afirmou Eva Lúcia Faria Rosa, 57 anos, líder da comunidade de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro.
"Tia Eva", como é conhecida, afirmou também que a diáspora dos negros pelo sudeste brasileiro, ocorrida após a abolição da escravatura (em maio de 1888), possibilitou uma disseminação do jongo. O seu avô, por exemplo, estabeleceu-se no interior de Minas Gerais, para trabalhar na construção de uma rede ferroviária.
O jongo atualmente é uma manifestação cultural celebrada de forma independente da religiosidade dos participantes, mas guarda marcas ainda do sagrado para alguns jongueiros, e de sincretismo.
"O jongo para mim é como uma religião, que eu levo com bastante respeito e carinho. Eu adoro o grupo, o jongo é minha família", afirma Sérgio Belarmino, 61 anos, da comunidade de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro.
A líder do jongo da Serrinha, também no Rio de Janeiro, Maria de Lourdes Mendes, 93 anos, realçou que a dança não é uma religião, mas seu grupo reza um Pai Nosso e uma Avé Maria antes de começar a roda, pela alma dos escravos.
"A vovó Maria Joana dizia que as almas dos cativos estão ali, porque o jongo é uma dança que veio dos tempos da escravidão. Com o falecimento deles, eles vêm quando tem uma roda de jongo. Então, temos que rezar, oferecendo aquelas almas", explicou a "tia Maria".