EM DIRETO
Guerra no Médio Oriente. Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito

Descolonização dos museus irá falhar se não promover a iguadade e a inclusão, afirma museólogo

Descolonização dos museus irá falhar se não promover a iguadade e a inclusão, afirma museólogo

O subdiretor do Museu Tropen, na Holanda, Wayne Modest, afirmou hoje, em Lisboa, que o processo de descolonização dos museus "irá falhar, se não for promovido um trabalho político e honesto para a mudança, com inclusão e igualdade".

Lusa /

O museólogo e investigador do Centro de Pesquisa de Cultura Material falava no debate "Descolonizar os Museus: isto, na prática...?", que está a decorrer no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

"Se for só um rótulo, só para parecer bem, a descolonização dos museus não vai resultar", sustentou, apelando a um "compromisso profundo" das autoridades e da sociedade em geral.

O encontro, que encheu totalmente um auditório do ICS, foi organizado pela Associação Acesso Cultura, criada em 2013 para promover boas práticas nos museus e outros espaços culturais na área da melhoria das condições de acesso a nível físico, social e intelectual.

Questionado pela audiência sobre a restituição de bens de antigas colónias que se encontram em museus de todo o mundo, um debate que está no centro da atualidade e já chegou a medidas práticas em países como a Alemanha e na França, disse que o seu museu está a criar processos de devolução, a partir de certos critérios.

"Nós criticamos a tendência de que não se devolvam peças com a justificação de que foi feito de acordo com a lei da época", disse, acrescentando que "também não está certo devolver peças só porque agora não são interessantes e estão a ocupar espaço".

Na sua intervenção, Wayne Modest falou sobre a sua experiência em museus na Holanda - onde "o colonialismo não é um tema fácil de se falar" - com o objetivo de lançar a reflexão sobre a descolonização destes espaços, lançando perguntas às equipas, ao público e à comunidade, para tentar obter respostas para aplicar na prática e promover a mudança.

"Há uma tendência de ser adverso ao desconforto, e de manter tudo como está, mas para fazer a descolonização nos museus é preciso ter um compromisso com o desconforto e fazer todas as perguntas necessárias", que incidem em muitas áreas, desde raça, escravatura colonial, capitalismo, integração, pertença, diferença, empoderamento, inclusão, herança cultural, disse.

Modest, nascido na Jamaica, falou em várias práticas de descolonização realizadas no museu holandês, que passaram, por exemplo, de questionar uma certa mentalidade colonial, nomeadamente criando um livro chamado "Words Matter" ("As palavras importam", em tradução livre), no qual são abordados 56 termos, como o uso da palavra indígena nos textos, entre outras, para fomentar uma certa "justiça social" e afastar descriminações das publicações.

"Foi bastante controverso. Na Holanda já não se usa a palavra caucasiano, mas a retirada da palavra negro causou bastante resistência. Nós agarramo-nos a certos hábitos nas nossas ideias. Por exemplo, a retirada da palavra negro provocou reações, já que as pessoas diziam, por exemplo, `os meus amigos negros não se importam de ser chamados negros`", apontou.

Os preconceitos e o racismo, apontou, mantêm-se nas narrativas predominantes em certos museus, como por exemplo, "que não foi tudo mau no colonialismo, também houve coisas boas como a construção de escolas e vias ferroviárias", ou "a ideia de que só há moda e design na Europa".

"Temos que fazer estas perguntas para colocar em causa certas ideias que se reproduzem e mantêm os preconceitos", defendeu.

"Todos nós nascemos e crescemos em sociedades racistas, porque isso está enraizado no nosso ADN. O importante é questionar a forma como se aborda essa tendência sem torná-la uma forma de violência para que o futuro seja mais inclusivo", defendeu.

O responsável falou sobre o domínio que hoje ainda se verifica da herança do colonialismo nas sociedades atuais e de como essa herança atravessa a mentalidade das instituições: "Neste momento político não estou muito otimista com o nosso futuro, mas estou esperançoso. O nosso compromisso é um trabalho em progresso, que não acaba nunca, exige uma atividade contínua, e não é fácil. Nós somos muito criticados por algumas pessoas. Mas tentamos fazer um trabalho que torne todas as pessoas nossos cúmplices para obter resultados para o futuro. Temos de fazer tudo isto juntos, incluindo não só as equipas dos museus, mas também a comunidade e toda a sociedade", apelou.

No museu, têm feito várias experiências para receber feedback da comunidade, nomeadamente convidar as forças policiais a ver uma exposição e a dar a sua opinião, entre outros grupos.

As práticas que o subdiretor do Torpenmuseum tem vindo a implementar são sobretudo dirigidas ao questionamento e à promoção da inclusão, e "um trabalho de luta árdua, porque a descolonização é vista como um fardo, mas é urgente encontrar estratégias de torná-lo possível".

Por onde tem trabalhado, encontrou o princípio de que os museus são espaços culturais e refletem o mundo, mas não fazem política, mas questionou esta forma de pensar: "Para nós cultura é política, e ao pensar no papel que desempenhamos no mundo contemporâneo e na sociedade holandesa, tentamos perceber o que é bom e não é".

"Há uma preocupação sobre o que pode significar que um museu faça um trabalho político, e quais são os limites e as possibilidades", apontou.

Por outro lado, também tem vindo a tentar contrariar a tendência para receber o mais possível de visitantes, em vez de também estar centrados em mudanças. Modest tem procurado, em vez disso, criar projetos que atraiam uma maior diversidade de públicos, sobretudo mais jovens, numa filosofia de "inclusão e diversidade".

Apontou que, embora, na Holanda, existam avanços na inclusão, nomeadamente quanto à igualdade de género nos museus, "existe um medo e ansiedade sobre alguns grupos de visitantes, como os adolescentes e as pessoas de cor, de que possam mexer e estragar alguma coisa, quando estão nas exposições".

Tópicos
PUB