Desenhos de crianças do Aleixo inspiram autores credenciados

Quatro desenhos de crianças carenciadas do Bairro do Aleixo, no Porto, serviram de inspiração a outros tantos autores para escreverem pequenas histórias para o livro "Os Artistas do Aleixo", que será lançado segunda-feira.

Agência LUSA /

Jacinto Lucas Pires, Eduarda Dionísio, Pedro Eiras e Regina Guimarães são os autores que aceitaram participar no desafio lançado pela mentora deste livro, a artista plástica Paula Silva.

Em declarações à Agência Lusa, Paula Silva referiu que esta obra é o culminar de um trabalho que desenvolveu naquele bairro camarário ao longo de três anos, no âmbito de um projecto contra a pobreza desenvolvido pela Agência para o Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro (ADILO).

A obra, editada pela Campo das Letras, reúne desenhos feitos pelas crianças do Aleixo num atelier de expressão que Paula Silva coordenou e histórias neles inspiradas, escritas pelos convidados.

Segundo Paula Silva, o trabalho realizado no atelier com crianças entre os dois e os 13 anos de idade demonstrou que, apesar de serem "miúdos como outros quaisquer, estas crianças vivem rodeadas de problemas", como a toxicodependência e a inexistência de objectivos de vida.

"São crianças com um imaginário como as outras, que têm maldade e dificuldades, mas que estão a crescer num bairro social fechado", disse.

Sustentou que, "a vida para estes miúdos é aquilo que lhes é transmitido pelos pais e avós", muitas vezes metidos na droga ou em actos ilícitos e com vidas "nada estruturadas".

Para a artista plástica, não se pode afirmar que sejam crianças carenciadas apenas por viverem em famílias com dificuldades financeiras, mas porque sofrem carências de diversos níveis, nomeadamente afectivas, sociais e culturais.

Os quatro escritores aceitaram na hora o convite que Paula Silva lhes fez por telefone, "respondendo na mesma data", disse, contando que, para isso, bastou revelar-lhes a sua intenção de lançar um livro de desenhos das crianças com quem trabalhou.

Paula Silva recorda os três anos passados no Aleixo, acreditando que "não é um punhado de pessoas", que trabalharam no projecto, "que consegue mudar o mundo de repente".

Contudo, vive na esperança que, "um dia, quem sabe", algumas das crianças tenham um despertar de consciência e escolham um rumo de vida diferente daquela em que cresceram.

"Mas só trabalhando é que um dia se poderá perceber que aconteceu alguma coisa de diferente naquela criança", frisou, louvando o trabalho desenvolvido pela ADILO naquele bairro da freguesia de Lordelo do Ouro considerado muito problemático.

A artista considerou "muito importante" que a sociedade civil participe no lançamento da obra, que decorrerá segunda-feira, na Casa das Artes, pelas 15:00, onde estarão presentes os autores convidados.

"A presença de estranhos fará com que as crianças sintam estar a ser mimadas", disse.

Segundo referiu, o lançamento de "Os artistas do Aleixo" está pensado para ser uma forma de inclusão das crianças na cidade.

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