Designers e artesãos "redesenham" tradição em S. Pedro do Corval
Com as mãos "moldadas" pelos anos a trabalhar o barro, os artesãos do maior centro oleiro do País, S. Pedro do Corval, têm estado a "redesenhar" a tradição, aprendendo com designers a introduzir modernidade nas suas peças.
António José Gaspar Velho, o "mestre Velhinho", é um dos 20 artesãos, de uma das 30 oficinas de olaria e de materiais tradicionais de construção ainda existentes naquela pequena aldeia de Reguengos de Monsaraz, que aceitou o desafio.
Aos 69 anos, o projecto "Desenhar a Tradição", uma parceria do Centro de Formação Profissional para a Indústria da Cerâmica (CENCAL) com entidades locais, levou-o a reformular técnicas ancestrais e a "beber" a inovação trazida pelos sete designers participantes.
Com a oficina "povoada" de objectos de barro, outrora comuns na região e "nascidos" das suas mãos e da roda de oleiro, como bilhas de água, panelas para levar ao lume ou alguidares para amassar o pão, o "mestre Velhinho" assinou, com a designer Maria Jesus Sheriff, uma série de peças inspiradas nos monumentos megalíticos do Alentejo.
"Primeiro pediram-me quatro peças, mas acabei fazendo oito, que lembram as antas e menires da região. Podem servir como potes ou para pôr velas e têm umas pedrinhas brancas de alto a baixo", explica, sentado na roda, enquanto limpa dos dedos o barro vermelho da peça que se entretém a fazer.
Como os outros colegas envolvidos na iniciativa, que acaba no final do mês, também este artesão, há 58 anos dedicado à arte de dar forma ao barro, se queixa da "crise do sector" e procura, embora ainda com dúvidas de que resulte, adaptar-se a novos mercados e aliar a modernidade à tradição.
"Com a crise que por aí anda, estamos sempre a produzir louça só para amontoar na oficina. Não a conseguimos vender porque as pessoas já não a usam no dia-a-dia. Se estas novas peças tiverem saída, então é com muito boa vontade que faço mais, mas ainda estou à espera de ver no que isto dá", afirma.
O conjunto de objectos assinados pelos designers, de vários pontos do País, e pelos artesãos alentejanos, para utilizar nas mesas e decorar casas e jardins, tem estado em exposição na vila medieval de Monsaraz, a poucos quilómetros de S. Pedro do Corval.
Um prato de aperitivos a lembrar os ilhéus de Alqueva ou um suporte de velas que, do lado oposto, recupera o "jogo do Algarve", semelhante às damas e típico da zona, habitualmente riscado no chão de xisto, são dois dos exemplos.
O conjunto integra ainda curiosas bilhas, com asas a lembrar braços e mãos "pousadas" como se a "personagem" estivesse a dormir a sesta depois de um farto almoço, ninhos suspensos para pássaros, vasos que se espetam na terra, tachos com pegas de madeira e bancos de barro que recriam as formas dos que são feitos em cortiça.
Autor de um banco e de um lavatório, num misto de barro com bases em ferro, Bernardo Providência é um dos designers que colaborou na parceria, neste caso com a oficina de Luís Dias, sabedor dos "segredos" do fabrico de tijolo-burro.
Uma das virtualidades da concepção destas peças, que devem ser vistas como protótipos, garante, é possibilitar ao artesão a aprendizagem de "novas técnicas e linguagens" na forma como trabalha a matéria, sem esquecer nunca a relação do artesanato local "com o património, a identidade e a tradição".
"Os designers desenvolveram um trabalho de pesquisa e de identidade com cada um dos artesãos. Numa segunda fase, criaram-se produtos contemporâneos que, ao mesmo tempo que respondem a novos mercados, tivessem algo de particular e único com cada oleiro", conta.
Os "mestres" de S. Pedro do Corval, segundo Bernardo Providência, terão agora de "apoderar-se destas novas ferramentas", ligadas ao saber fazer, e inovar as suas peças artesanais, recorrendo aos designers "a qualquer momento".
Esta "aliança" entre a tradição e a inovação, no campo do artesanato alentejano, implementada ao abrigo do Programa REDE, ainda deverá ser acompanhada de medidas que facilitem a colocação das novas peças nos mercados.
Com esperanças de que o futuro seja mais risonho do que o presente, são os próprios artesãos a reivindicar a necessidade de continuarem a ser apoiados nesta "aventura" e, embora satisfeitos com o alento já recebido, ainda esperam "ver para crer".
"O projecto trouxe sangue novo ao artesanato local. Mas tem que ser complementado com outras iniciativas e, mesmo assim, talvez só quatro ou cinco oficinas é que estejam preparadas para esperar mais um ou dois anos por resultados práticos", argumenta o oleiro e presidente da Junta de freguesia local, Inácio Gaspar.