Diferentes idades e geografias unidas na "paixão pelo chorinho"

Lisboa, 04 set (Lusa) -- Português, brasileiro ou estrangeiro, não há quem resista a um chorinho. É disso prova a enchente na Casa de Lafões, às terças-feiras, para ouvir e ver a Roda de Choro de Lisboa, que acaba de lançar um disco.

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As pessoas tanto pediram -- "então e o CD?" -- que eles lá cederam. Com mais de 600 concertos, em quase seis anos de atividade, veio o primeiro álbum.

"Lusofolias" contém 12 temas do repertório da banda, três dos quais originais, e uma participação especial de Sérgio Godinho, que dá voz a "Carinhoso", de Pixinguinha -- em troca, a Roda toca com o cantautor no seu novo álbum, "Mútuo Consentimento".

A ideia era gravar algo que "as pessoas que veem 30 ou 40 concertos da Roda por ano quisessem levar para casa", explicou à agência Lusa o português Nuno Gamboa, um dos músicos da banda, que integra ainda mais um português, dois brasileiros e um francês.

"Foi um compromisso difícil, tinha de ser uma coisa mesmo muito boa. Investimos em gravar num bom estúdio", acrescentou, enquanto fazia uma pausa na afinação para mais um concerto na Casa de Lafões, na Rua da Madalena, em Lisboa.

"Misturamos elementos da música portuguesa, como o corridinho, o fandango, o fado... A nossa música é uma mistura. Não pretendemos fazer um chorinho puro como se faz no Rio de Janeiro. A nossa linguagem pretende ser mais multicultural, mais `world music`", descreveu Nuno Gamboa, já equipado com o fato branco e os suspensórios, o chapéu de palha e os sapatos bicolores típicos do "malandro".

Assim vestido à maneira está Joel de Oliveira, que veio dançar. Este brasileiro de Araras, do interior de São Paulo, acompanha a Roda de Choro "há um ano". É o rei da pista, o gingão, sozinho ou com par, as pernas parecem elásticas -- o que não quer dizer que não haja mais bailarinos e bailarinas a quem prestar atenção no salão.

Mas é no sangue de Joel que está o chorinho: "O chorinho é samba, é um derivado do samba. Tem tudo a ver comigo, já aprendi dançando desde menino. Vem junto, é uma coisa que eu não sei muito explicar... O ritmo da música me embala, fica muito fácil, simples assim", tentou explicar à Lusa.

Em cima do seu sapato de malandro, Joel pega em Ana Cardoso, que ainda estuda os passos. É uma estreante, que entra "no espírito da dança", ainda que seja para errar.

Já Inês Cardoso é uma "habitué", vai onde vai a Roda de Choro desde 2007. "Costumo dizer que onde eles estiverem a tocar é a minha sala de estar fora de casa. É um sítio onde me sinto bem, à vontade, onde se dança, o ambiente é sempre bem disposto e é impossível sair daqui sem um sorriso todas as vezes que cá venho", resumiu à Lusa.

Quando a atuação começa, fecham-se as janelas do salão, mas o som acaba por se escapulir um pouco e chamar quem passa na Rua da Madalena. Aos frequentadores assíduos juntam-se os curiosos. Sem fronteiras nem geografias.

Camilla Kuckartz, alemã chegada há três semanas a Portugal para estudar, veio atrás dos colegas de casa brasileiros e portugueses. Nunca tinha ouvido chorinho. "É a primeira vez. Há um rapaz que me perguntou [se queria dançar], já experimentei, mas é muito complicado, é muito rápido. Gostei, mas acho que para ele foi um pouco aborrecido, porque eu não sei muito dançar isto", realçou, num português percetível.

É assim todas as terças-feiras, na Casa de Lafões, a partir das 22:30. Pessoas sem aparentes laços entre si acabam unidas na "paixão pelo chorinho", como disse Nuno Gamboa.

Os "célebres bailes" de onde "chegaram a sair casamentos" deixaram de dar dinheiro, as discotecas começaram a surgir, "as coisas mudaram" e a Casa de Lafões viu-se na necessidade de se "virar" para outros públicos, recordou à Lusa Alberto Figueiredo, presidente da direção da instituição.

Em estado de nervoso miudinho face à proximidade da visita do Presidente da República, a 08 de outubro, para as comemorações do centenário da Casa de Lafões, Alberto Figueiredo antecipou o que vamos ver dali a nada: "um baile diferente, que tem o seu público fiel e traz realmente muita gente, nacionais e estrangeiros".

A Roda de Choro de Lisboa já ali toca "vai fazer um ano" e tem sido "muito gratificante", porque "dá vida à casa", considerou, explicando que a instituição chegou a ter as portas abertas estritamente para sócios, familiares e amigos, mas agora abriu-se à comunidade.

O número de espetadores estabilizou "há três anos", mas a Roda de Choro de Lisboa -- composta também por Eduardo Miranda (bandolim), Etienne Lamaison (clarinete), Carlos Lopes (acordeão) e Alexandre Santos (percussão) -- toca "para 200 a 300 pessoas" e dá "uma média de três concertos por semana", congratulou-se Nuno Gamboa.

Para ouvir e dançar o chorinho, que assinala "o princípio da música urbana brasileira", vem gente "de todo o género, dos 16 aos 70 anos", descreveu o músico, apontando: "Há uns que sabem dançar muito bem, há outros que vêm aqui e depois querem aprender, ficam fascinados com a dança a par, que é uma coisa que se foi perdendo."

 

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