Diretor artístico de Serralves considera que cortes de 50% "seriam fatais para o projeto"
Porto, 22 nov (Lusa) -- O diretor de Serralves, João Fernandes, considerou hoje que a possibilidade de os cortes nas fundações poderem chegar a 50% "seriam fatais para o projeto" do museu.
"Recuso-me a aceitar que isso possa ser possível e acredito que, apesar de tudo, o trabalho feito ao longo destes anos proteja a instituição de situações que a pudessem por em perigo a esse nível", afirmou João Fernandes no final de uma visita guiada à exposição de Julião Sarmento, a última que comissaria enquanto diretor de Serralves, já que no próximo ano assumirá funções no Museu Reina Sofia, em Madrid.
O diretor desejou que "não se confirmem os cenários mais drásticos de cortes" - foi noticiada no sábado passado a vontade da maioria governamental de ampliar a redução do financiamento do Estado a fundações de 30% para 50% - que "haja bom senso e capacidade da sociedade de defender este projeto".
"Eu acho que Serralves é muito importante, mesmo em termos económicos para a cidade e para o país, não só em termos culturais e artísticos, e seria uma regressão completa criar uma situação que fosse insustentável para a persecução do projeto" afirmou João Fernandes à agência Lusa.
"O país tem problemas sérios e nós aqui confrontamo-nos com esses problemas também", garantiu o diretor, que fez notar que na exposição de Julião Sarmento se defrontou com os problemas dos cortes.
"Há obras que eu gostaria de ter apresentado e que não consegui, por exemplo, se bem que esteja muito satisfeito com o resultado final e com uma outra coisa que foi importantíssima: esta exposição só consegue abrir com a qualidade e esta dimensão representativa da obra do artista porque os nossos mecenas compreenderam a situação em que estávamos e compensaram alguns dos cortes recentes do Estado", disse João Fernandes.
Lembrou que este era um exemplo de como a Fundação de Serralves "fazendo convergir o Estado com os privados consegue construir um projeto que é singular na sociedade portuguesa".
Para João Fernandes, o facto de terminar o seu percurso em Serralves, uma instituição com preocupações de internacionalização da arte portuguesa, com a exposição daquele que é o "mais internacional" artista português "é uma feliz coincidência".
"Com efeito, fico satisfeito por deixar Serralves com a exposição de um artista que foi o primeiro artista português a conquistar visibilidade internacional vivendo em Portugal e cuja obra tem circulado pelo mundo", afirmou, lembrando que sempre procurou colocar Serralves como uma instância que desse visibilidade aos artistas portugueses de dentro para fora e de fora para dentro".
João Fernandes garantiu que para ele o importante é pensar que as próximas exposições que eu programa "são de artistas que muito importantes no contexto da arte portuguesa e que eu creio no contexto internacional como o Alberto Carneiro ou Jorge Martins, ou ainda Mel Bochner ou Cildo Meireles".
Estes são alguns dos nomes que deixará na programação do próximo ano, quando a britânica Suzanne Cotter tomar o seu lugar permitindo, como é normal, que ela tenha "tempo para preparar a sua programação para daqui a dois anos".