Distinção "peca por tardia" mas é "muito especial"

Évora, 16 dez (Lusa) -- A atribuição do Prémio Pessoa 2011 a Eduardo Lourenço "peca por tardia", mas tem "significado muito especial" pelo "lugar destacadíssimo" de Fernando Pessoa na obra do ensaísta e filósofo, defendeu hoje um investigador da Universidade de Évora.

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Em declarações à agência Lusa, João Tiago Pedroso de Lima, um dos coordenadores científicos do projeto de edição das obras completas de Eduardo Lourenço, assegurou tratar-se de "um reconhecimento mais do que merecido".

"Parece-me só pecar por tardia [a distinção]", mas "penso que se reveste de um significado muito especial para o próprio Eduardo Lourenço", frisou.

O investigador da Universidade de Évora lembrou que o ensaísta e filósofo foi distinguido, anteriormente, com os prémios Camões, Vergílio Ferreira e António Sérgio, ainda que o Prémio Pessoa seja especial.

"Fernando Pessoa ocupa, na obra de Eduardo Lourenço, um lugar destacadíssimo. É talvez o autor que se constitui como um interlocutor mais importante do próprio Eduardo Lourenço, não apenas do ponto de vista literário, mas até filosófico", acentuou.

João Tiago Pedroso de Lima argumentou que "toda a obra" do ensaísta e filósofo pode ser considerada como "um permanente e inacabado diálogo com o universo poético e literário de Pessoa".

"Por isso, estou absolutamente certo que é um prémio que vai dar uma enorme alegria a Eduardo Lourenço. Digamos que era o prémio que ele verdadeiramente desejaria receber", arriscou.

A edição das obras completas de Eduardo Lourenço, cujo primeiro volume foi apresentado no dia 02 deste mês, é um projeto financiado pela Fundação Gulbenkian e a funcionar, desde julho de 2010, no Núcleo de Investigação de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Évora.

Segundo este coordenador científico do trabalho, a "maior dificuldade" é a "obra imensa e, sobretudo, imensamente dispersa" do escritor.

"As obras completas, além de reunirem aquilo que está publicado em livros e em publicações extremamente dispersas, acrescentam ainda um conjunto significativo de textos inéditos manuscritos, que revelam uma parte ainda desconhecida e muito importante da obra e do pensamento de Eduardo Lourenço", afiançou.

O investigador, cuja tese de doutoramento foi centrada no pensamento deste ensaísta e filósofo, realçou ainda que o contributo do escritor para a cultura portuguesa tem sido "significativo", devido à sua "originalidade muito grande".

Contudo, reconheceu, a influência que o pensamento de Eduardo Lourenço tem "na vida quotidiana dos portugueses é ainda relativamente diminuta", porque "não é um autor muito lido".

"A melhor maneira de homenagear Eduardo Lourenço é lê-lo, estudá-lo, discuti-lo, contestá-lo, se for caso disso, e depois se verá se isso tem ou não influência na vida das pessoas", frisou, garantindo que não se trata de "um pensador para consumo rápido ou imediato".

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