"Dois Perdidos Numa Noite Suja" pela Escola da Noite em Coimbra

A companhia A Escola da Noite, de Coimbra, estreia esta sexta-feira uma nova produção, "Dois Perdidos Numa Noite Suja", do dramaturgo brasileiro Plínio Marcos, que se manterá em cartaz até 27 de Novembro.

RTP Multimédia com Agência Lusa /
Ademir Rocha e Plínio Marcos: "Dois Perdidos Numa Noite Suja", em São Paulo, em 1966: a estreia Sítio Oficial Plínio Marcos

Encenada por Sílvia Brito, "Dois Perdidos Numa Noite Suja" é uma história de luta e sobrevivência num quotidiano agreste, que teve a sua primeira apresentação em 1966.

Inspirada no conto "O Terror de Roma", do escritor italiano
Alberto Moravia, esta peça dá inicio à carreira profissional de Plínio Marcos, tendo sido apresentada pela primeira vez num bar de São Paulo, num espectáculo em que o próprio dramaturgo participa para dar vida à personagem Paco.

Considerado um dos mais importantes dramaturgos brasileiros da segunda metade do Século XX, Plínio Marcos legou cerca de duas centena de peças, onde se incluem "Navalha na Carne", "Oração para um Pé de Chinelo", "Abajur Liláz" e "A Marcha Roxa".

Tendo encetado a sua carreira no circo, como palhaço, o autor escreveu e encenou, ainda como amador, a sua primeira peça para teatro, "Barrela", em 1959, a qual, logo após a primeira apresentação, foi proibida pela censura.

Centrando a temática das suas obras na exclusão social e
marginalidade, Plínio Marcos foi perseguido pela censura do regime brasileiro, mas a importância da sua obra fica demonstrada, designadamente, pelo facto de o Teatro Nacional de Brasília ostentar o seu nome.

Na interpretação desta produção para A Escola da Noite surgem Carlos Marques e Ricardo Correia, sob a direcção artística de Sílvia Brito, membro do elenco da companhia, repartindo a sua actividade pela interpretação e pela encenação.

Esta é a segunda obra da dramaturgia brasileira que a companhia encena - a primeira fora "A Serpente", de Nelson Rodrigues, em 1998.

"Dois Perdidos Numa Noite Suja" segue-se, assim, a "O Cerejal", de Anton Tchekhov, e estará em cena de quarta-feira a sábado, até 27 de Novembro, na Oficina Municipal de Teatro, em Coimbra.

A palavra do autor

O Sítio Oficial Plínio Marcos reproduz um o que, sobre "Dois Perdidos Numa Noite Suja", o próprio dramaturgo contou e que se transcreve, aqui, com a devida vénia:

"Então, escrevi Dois Perdidos numa Noite Suja para eu mesmo representar. Ator pequeno, sem nome, sem carreira, sem nada, trabalhando de técnico na Televisão Tupi, ninguém convidava pra nada. Ninguém se lembrava que eu era também ator. Então escrevi uma peça com papel pra mim."

"Uma peça de dois personagens, inspirada num conto do Moravia, O Terror de Roma. Peguei o Ademir Rocha, que também estava desempregado, e chamei o Benjamin Cattan pra dirigir. E, como não tínhamos local, fomos estrear no Ponto de Encontro, um bar na Galeria Metrópole, que o Emílio Fontana conseguiu pra nós. A Nídia Lycia, que é muito minha amiga, foi quem me emprestou os cinqüenta mil-réis pra montar a peça. O Bucka, outro amigão, outro dinheirinho."

"O pessoal da técnica da Tupi ajudou a gente a afanar refletores, os praticáveis, as camas e tudo aquilo de que precisávamos para o cenário. O transporte foi feito pelo pessoal da garagem."

"O Toninho Matos e o Paulinho Ubiratan (depois diretor da Globo) operavam luz e som."

"Cinco pessoas foram assistir à estréia: a Walderez, o Carlos Murtinho, a mulher do Ademir, um bêbado, que não quis sair porque aquilo lá era um bar, e o Roberto Freire. Aí, o Roberto Freire começou a fazer uma onda em torno, dizendo que a peça era muito boa, e outra vez voltei a ser notícia como autor teatral. O Alberto D'Aversa escreveu cinco artigos sobre a peça. Fiquei na moda. A Cacilda Becker, quando viu a peça, comentou: Incrível! Você conhece dez palavras e dez palavrões, e escreveu uma peça genial. E várias peças minhas piaram na parada: Navalha na Carne, Quando as Máquinas Param, Homens de Papel."

"Dois Perdidos foi liberada porque naqueles dias a Censura passou da Polícia Estadual para Federal. E mudaram os censores. Mandaram o Coelho Neto assistir ao ensaio. Homem de teatro, diretor de peças. Foi da comissão julgadora do Festival de Santos, quando a Barrela se consagrou."

"Numa tarde de sábado, chuvosa e fria, num estúdio abandonado da Tupi, sem cenário, eu e o Ademir, sentados em bancos velhos, falamos o texto pra ele. Quando acabamos, ele liberou o texto sem cortes."

Registe-se, finalmente, que, filho de um bancário (Armando) e de uma dona-de-casa (Hermínia) - e com uma irmã e quatro irmãos -, Plínio Marcos de Barros nasceu a 29 de Setembro de 1935, em Santos, e faleceu a 19 de Novembro de 1999, em São Paulo.
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