Doris Lessing é um escritora do realismo, mas com postura provocadora - especialista

A escritora Doris Lessing, Nobel da Literatura 2007, pode inserir-se na literatura realista, mas sempre com uma postura de permanente auto-interrogação, afirmou hoje à agência Lusa a professora universitária Luísa Rodrigues Flora.

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Segundo a docente, que há vinte anos estudou a obra de Doris Lessing na tese de doutoramento, a escritora merece estar nos cânones nem que seja por um único livro: "The Golden Notebook", editado nos anos 1960 e que a projectou internacionalmente.

"Ela faz uma problematização da escrita, da capacidade do romance transformar a realidade, tomando como ponto de partida o bloqueio de escrita, muito comum hoje em dia, mas pouco usual nos anos 1960", sublinhou a doutorada.

"The Golden Notebook" foi utilizado como um manifesto pelo feminismo, rótulo que a escritora britânica rejeitou, referiu Luísa Rodrigues Flora.

Doris Lessing é referida como uma escritora de causas, uma afirmação que a docente explica, por exemplo, pela experiência vivida em África durante a adolescência, no convívio com os negros no Zimbabué, na ligação a um embrião do Partido Comunista naquela antiga colónia britânica.

"É uma autora permanentemente aberta ao que se passa à sua volta e pôs a nu uma série de contradições da sociedade contemporânea", sublinhou a especialista.

A Academia Sueca, que anunciou hoje o nome de Doris Lessing, elogiou-lhe a forma como conta a experiência feminina e a "força visionária" com que "perscruta uma civilização dividida", mas não faz referência à obra de ficção científica (FC).

Segundo o especialista e autor de FC João Barreiros, Doris Lessing utilizou este género literário como um meio e não um fim em si mesmo para contar histórias.

"É mais uma efabulação, uma metáfora mítico-mágica do que uma ligação directa ao género", referiu João Barreiros à agência Lusa, dando conta que todos os livros de Doris Lessing têm "um toque de ficção científica".

Doris Lessing tem publicadas em Portugal várias obras de FC, entre as quais os cinco volumes de "Shikasta" (1985), "Experiências Sirianas" (1985) ou "A formação do representante do planeta 8" (1985).

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