Doris Lessing faz apologia do livro no discurso de aceitação do Nobel
Estocolmo, 08 Dez (Lusa) - Doris Lessing fez sexta-feira uma apologia do livro no discurso de aceitação do Nobel da Literatura, contrapondo a sede de saber dos países pobres à falta de interesse dos jovens dos países ricos pela sua herança cultural.
Doente, a romancista britânica de 88 anos não pôde deslocar-se a Estocolmo para proferir o seu discurso perante a Academia Sueca, tendo cabido ao seu editor britânico, Nicholas Pearson, a leitura do texto, intitulado "Como não ganhar o Prémio Nobel".
"Nós possuímos uma mina - um tesouro - de literatura (...) Está lá tudo, esta profusão literária, pronta para ser incessantemente redescoberta por quem quer que tenha a sorte de com ela deparar. Um tesouro. Imaginem que ele nunca tinha existido. Como seríamos vazios, pobres!...", escreveu Lessing.
Mas, segundo a escritora, os jovens das sociedades desenvolvidas de hoje perderam o gosto pelo livro, preferindo a Internet e a televisão, o que, para ela, é uma verdadeira nova "revolução", sobre a qual o mundo não se interroga suficientemente.
"Como é que nós vamos, como é que os nossos espíritos vão evoluir com a novidade Internet, que seduziu toda uma geração para a converter às suas inépcias", questionou-se.
A romancista referiu-se, em contraste, ao Zimbabué, a ex-Rodésia onde cresceu e onde as escolas são miseráveis e os professores "mendigam livros", apesar do "regime de terror instaurado por Mugabe (presidente do país)".
Doris Lessing concluiu o seu discurso pessimista expressando a esperança de que o contador de histórias "continue a existir sempre, porque são os nossos imaginários que nos modelam, nos fazem viver, nos criam, para o melhor e para o pior".
"É o contador de histórias, o fazedor de sonhos, o fazedor de mitos, que é a nossa Fénix - disse ainda a escritora - o melhor de nós, no máximo da nossa criatividade".
A cerimónia oficial de entrega dos Prémios Nobel 2007 realiza-se segunda-feira em Estocolmo e, em Oslo, para o Nobel da Paz.
ANC.