Dulce Maria Cardoso estreia-se na escrita para os mais novos com "A Bíblia de Lôá"
Lisboa, 06 jun (Lusa) - A escritora Dulce Maria Cardoso estreia-se na literatura para crianças e jovens com a coleção "A Bíblia de Lôá", inspirada em passagens dos textos da Bíblia, mas em busca de outros significados, disse a autora à agência Lusa.
Com ilustração de Vera Tavares e edição da Tinta da China, a coleção tem início com "Lôá e a véspera do primeiro dia" e "Lôá perdida no paraíso", sobre a criação do mundo e sobre Adão e Eva.
Nas duas histórias, Dulce Maria Cardoso inventou uma "menina-deus"- Lôá -, "de aparência frágil", que desenhou o mundo com um lápis num livro em branco.
A escritora, conhecida sobretudo como romancista e contista, escreveu seis histórias para crianças a partir da Bíblia, desafiada por Teresa Paixão, programadora da RTP.
"Saí da minha zona de conforto, mas não quis fazer leituras bíblicas para crianças. Não tenho temor à Igreja embora goste de ler a Bíblia, porque dramaticamente é muito interessante. O que foi mais desafiante foi encontrar outros significados na Bíblia, porque estamos imersos neste caldo judaico-cristão que é portador de imensos preconceitos", explicou Dulce Maria Cardoso.
Há o pecado, o castigo, a culpa, mas a autora procurou novas leituras, como por exemplo a questão de género na Bíblia, porque os textos religiosos nela inscritos "menorizam muito a mulher".
Não é por acaso que a protagonista é uma mulher, criadora do mundo à sua imagem e semelhança, "uma figura bastante solitária e que cria através da arte", sendo a arte "a possibilidade de mudança".
"Não tenho pretensões de mudar a tradição secular de preconceito e `A Bíblia de Lôá` pode ser lida por crentes e não crentes, de acordo com a sua fé", afirmou.
Nos livros, com vários níveis de interpretação para leitores iniciais e leitores autónomos, Dulce Maria Cardoso recorre a vários trocadilhos, referindo-se por exemplo a um "orvil" (lê-se "livro" ao contrário), e brinca com a linguagem, procurando as semelhanças entre "querer" e "crer" e inventando o "Para-isso" (Paraíso).
Nestas obras Dulce Maria Cardoso sentiu necessidade "de blindar o texto" e teve uma "preocupação diferente" na escrita, a pensar nos jovens destinatários.
"As crianças e os jovens são como umas esponjas, absorvem tudo, é difícil prender-lhes a atenção e tive uma outra preocupação no que escrevia, porque também queria diverti-los, ter `ganchos` para lhes prender a atenção", afirmou.
Para a coleção "A Bíblia de Lôá", Dulce Maria Cardoso escreveu seis histórias, sendo publicadas agora as duas primeiras.
Cada um dos livros apresenta, no final, as passagens da Bíblia que inspiraram as histórias e inclui "sugestões de exploração para educadores".
Dulce Maria Cardoso é autora de romances como "O chão dos pardais" e "Retorno", enquanto Vera Tavares é designer na Tinta-da-China desde 2006, tendo ilustrado anteriormente "Curupira Pirapora", da autora brasileira Tatiana Salem Levy, que inaugurou o catálogo da Tinta-da-China mais direcionado para os jovens e crianças.