Durão Barroso diz que globalização não ameaça diversidade cultural
Rio de Janeiro, Brasil, 20 Mar (Lusa) - O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou quarta-feira, no Rio de Janeiro, que o fenómeno da globalização não ameaça a diversidade cultural dos povos.
"O Brasil é a prova cabal de que a globalização não é sinónimo de uniformização nem um rolo compressor da diversidade cultural", disse Barroso, num jantar na Academia Brasileira de Letras (ABL), no âmbito das Comemorações dos 200 anos da Chegada da Família Real Portuguesa.
"O Rio de Janeiro de D. João VI e a sua Corte, microcosmo da globalização, foi o terreno fértil onde se gerou a identidade e a nacionalidade brasileiras, fruto de um intenso diálogo entre culturas", salientou.
Ao sublinhar que estava a falar a "título pessoal, não como presidente da CE", Durão Barroso afirmou que D. João VI simbolizou a "visão globalizante de um rei que deixou marcas profundas no Brasil e na sua cultura".
"A nova condição de sede do Império português e a abertura dos portos transformou a grande aldeia tropical do Rio de Janeiro numa cidade cosmopolita e num grande centro populacional onde se concentravam representantes estrangeiros, comerciantes, viajantes, artistas e estudiosos europeus", disse.
"A nova capital era a porta de entrada de um país que se abria a um grande número de cientistas fascinados com o imenso laboratório natural e racial que era o Brasil no tempo de D. João VI", afirmou.
Em visita oficial ao Brasil, o presidente da CE participou segunda-feira, em São Paulo, na abertura da conferência "O Euro: Implicações globais e importância para a América Latina" e recebeu o título de "doutor honoris causa" da Pontifícia Universidade Católica.
Antes de participar no jantar com os "imortais" da ABL e com a comissão organizadora das comemorações dos 200 anos, Durão Barroso foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília.
Durão Barroso salientou que D. João VI "foi alguém que esteve na origem do redesenhar das relações entre continentes" e que o Brasil é hoje o "maior espaço da língua portuguesa no mundo".
"Poucas vezes a história registou mudanças tão profundas e decisivas para o futuro de diversos povos e países como no período em que a família real e a corte portuguesas se instalaram no Rio de Janeiro, nos treze anos que antecederam a independência do Brasil", disse.
Durão Barroso sublinhou que, pela primeira e única vez na História, estabeleceu-se uma capital europeia fora da Europa e a "grande aldeia que era então o Rio de Janeiro foi transformada em capital do reino e do império português".
Portugal, por seu turno, manteve a soberania por força da ausência do seu poder político, exercido agora a partir de uma colónia e com um oceano pelo meio.
"De campo de batalha da disputa hegemónica entre ingleses e franceses até 1812, a metrópole europeia passou assim a reino subalterno em relação à sua maior colónia, uma situação inédita na História da Europa", disse.
Durão Barroso sublinhou que a transferência da capital para o Rio de Janeiro ultrapassou "o horizonte dos destinos cruzados de Portugal e do Brasil pelas consequências que essa decisão teve na História e no sistema mundial então em vigor".
O presidente da Comissão Europeia disse que com a corte portuguesa, em 1808, seguiu também "sem viagem de regresso, o antigo regime e o modelo económico que o sustentava, baseado no controlo da rota oceânica do Brasil".
"A retirada da corte para o Rio de Janeiro marcou, assim, a transição para um novo sistema global", disse, saudando a "feliz coincidência" de a comemoração da chegada da corte estar a ser feita no Ano Europeu do Diálogo Intercultural 2008.
"A Europa é, desde o início da sua história - mesmo quando as vicissitudes dessa história a desuniram - um laboratório do diálogo intercultural à escala de um continente", disse.
"Mas, apesar do processo de globalização iniciada com os descobrimentos portugueses, o encontro com novas culturas não europeias era ainda, no início do século XIX, uma realidade exótica e longínqua, que explica o êxito de uma extensa literatura de viagens", afirmou.
O presidente da Comissão Europeia sublinhou que os laços históricos e culturais que unem a Europa ao Brasil "conferem às relações uma especificidade que facilita a cooperação com a UE e se traduz num conjunto de valores, interesses e objectivos comuns".
"Essa especificidade deriva, em grande parte, da unidade política e da proximidade física e cultural estabelecida por D. João VI entre os dois lados do Atlântico", afirmou.
Durão Barroso classificou como "dimensão fundamental" o facto de a projecção da Europa no mundo ser resultado, em grande parte, das relações que os europeus estabeleceram com outros povos ao longo dos séculos.
"A globalização faz da cultura um dos motores das relações internacionais e um vector de difusão dos valores que ela veicula", concluiu.