DVDs de antigas séries infantis apelam à criança que há em quem ronda os 30 anos
Séries de animação dos anos 70 e 80 editadas em DVD aproveitam a criança que existe dentro de cada adulto para fazer lucro mas essas histórias podem servir para transmitir valores entre as gerações.
Nas lojas da especialidade ou nas grandes superfícies comerciais sucede m-se os conjuntos de episódios da Abelha Maia, da Heidi, do Marco, das Aventuras de Tom Sawyer ou das peripécias dos esquilos Bana e Flapi.
Aos 81 anos, Vasco Granja, rosto de programas de animação na televisão pública durante mais de década e meia, afirmou à Agência Lusa que "as pessoas qu erem sempre coleccionar as séries que as inspiraram na infância e é espantoso co mo as mais antigas têm resistido apesar do surgimento de novas".
"O mercado aposta em colocar essa animação em novos suportes porque, me smo aqueles que já são pais, têm interesse neles, podendo inclusivamente criar n os filhos o fascínio que eles próprios sentiram na infância", defendeu o apresen tador televisivo, já retirado.
Na opinião de Vasco Granja, "é o saudosismo que conduz à compra e que f az com que as séries se mantenham ao longo dos anos, alimentando a criança que e xiste em cada um de nós, por mais que se cresça e envelheça".
Destacando "a valentia e a amizade" como "valores que estas séries mant êm incólumes para miúdos e graúdos, até com uma certa ingenuidade", Vasco Granja afirmou não lhe causar espanto que "as crianças gostem de desenhos animados que já encantaram os pais e que continuam a ter heróis simbólicos".
"No entanto - e embora ainda existam séries que vale a pena editar - co nvém não saturar o mercado, para não matar a galinha dos ovos de ouro", avisou.
Também Paulo Ferreira, responsável pela página de Internet Mistério Juv enil (www.misteriojuvenil.com), que recorda inúmeras séries da infância de quem agora tem entre 25 e 35 anos, alertou para a "explosão" de DVDs que as recuperam .
"A indústria do DVD começou por colocar no mercado algumas séries a tít ulo experimental, e, quando se apercebeu de que isso dava resposta ao saudosismo de quem as viu na televisão, começou a investir mais e mais, e deu-se um autênt ico `boom`".
E, "apesar de algumas pessoas se queixarem de que as vozes que fazem as dobragens no DVD são diferentes das que recordam da edição televisiva, não resi stem aos novos suportes tecnológicos", afirmou.
Paulo Ferreira, que há cerca de um ano chegou a ter 6 mil visitas diári as no seu sítio, ainda se lembra das reacções quando colocou na Net o genérico d as Aventuras de Tom Sawyer: "Algumas pessoas escreveram-me a contar a emoção de voltar a ouvir a canção".
O repórter de imagem, de 34 anos, acredita que "aqueles desenhos animad os se tornaram marcantes por quem os viu na infância por transmitirem valores co mo a amizade e o respeito, que se têm vindo a perder na animação actual, cada ve z com mais acção e violência".
Professora na EB1 nº 4 do Montijo e mãe de uma menina de 22 meses, Fili pa Sequeira concorda que "as crianças se identificarão sempre com valores como a justiça, a bondade e a coragem, que são intemporais e que, quando referidos no contexto de uma aula, fazem ceder até os alunos mais duros".
"É claro que na comercialização destes DVDs há uma perspectiva lucrativ a que joga com o facto de nós cada vez crescermos mais tarde, mas, de uma certa forma, esses desenhos animados podem compensar lacunas ao tornarem presente a in fância que já passou", acrescentou.
Na opinião desta docente, "rever as séries pode também funcionar como u m ponto de união no seio da família, suscitando, entre pais e filhos, uma troca de opiniões e uma partilha desse passado que os aproxima".
A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos evita os termos "nostalgia ou saudosis mo", defendendo que a compra de séries como O Ursinho Misha ou Rui, o Pequeno Ci d tem, antes, por base "o desejo que os pais sentem de transmitir aos filhos alg o que foi importante para eles".
"E a verdade - e sei isso porque as crianças mo contam nas consultas - é que elas adoram ver algo que os pais já viram, pois isso facilita a passagem d e narrativas no seio da família e estreita os laços entre gerações", revelou Ana Vasconcelos à Agência Lusa.
Para a pedopsiquiatra, "quem lida com este mercado, já percebeu que enc ontrou ali um filão e que, se calhar, os pais compram mais facilmente o DVD do M arco, que viram quando eram pequenos, do que do Dragon Ball, mesmo que o filho p eça o segundo".
Porém, "essa exploração comercial não é forçosamente má, pois a chegada das séries aos novos suportes permite que um adulto acorde o miúdo que há em si . Quanto a mim, comprei todos os episódios do Tintin quando saíram em DVD".
Aos 11 anos, Beatriz Seves também acha natural gostar da animação que o s pais viram: "Eu sei que a Heidi é do tempo da minha mãe, mas continua a ter co isas boas, como ensinar-nos a ser amigos das pessoas diferentes de nós e a não j ulgarmos os outros só pelo exterior".
Beatriz, aluna do 6º ano na EB2+3 da Bela Vista, em Setúbal, também vê o Noddy, personagem criada pela escritora inglesa Enid Blyton (1897-1968) e cuja adaptação televisiva tem vindo a cativar os mais pequenos.
"Os desenhos animados actuais são pouco educativos mas quando vejo o No ddy com o meu irmão, que tem 3 anos, percebo que há ali uma mensagem, que se alg uém proceder mal vai preso, o que significa que se eu fizer uma coisa errada pos so ser castigada", explicou.
Em relação à animação actual, Beatriz Seves é crítica: "[Os programas] ensinam-nos a violência para nos defendermos dos outros mas se ninguém for viole nto ninguém precisa de se defender, não é?" - interroga.
Afirmando que não está à espera de receber DVDs de desenhos animados an tigos pelo Natal e que cada vez gosta mais de ser ela a oferecer presentes, "par a ver o sorriso de quem recebe", conclui que "até era capaz de dar um desses à m inha mãe".