Editada primeira biografia e análise da obra de Luís de Freitas Branco

A primeira biografia do compositor Luís de Freitas Branco, incluindo a análise da sua obra, com documentos e factos inéditos, nomeadamente as circunstâncias das perseguições de que foi alvo pelo Estado Novo, é apresentada segunda-feira em Lisboa.

Agência LUSA /

A obra, que será apresentada por Rui Vieira Nery no Teatro Nacional de S. Carlos, é de autoria de Alexandre Delgado, que a coordenou e planificou, bem como de Ana Telles e Nuno Bettencourt Mendes, inserindo-se no plano das comemorações do cinquentenário da morte do compositor, efeméride celebrada em 2005.

Em declarações à Lusa, Alexandre Delgado assinalou que "a obra está recheada de informações inéditas, resultado de vários anos de investigação".

Segundo o violetista e compositor, "pela primeira vez" são dadas a conhecer as circunstâncias concretas das perseguições de que Luís de Freitas Branco foi alvo pelo regime do Estado Novo, como por exemplo "a infame sindicância que lhe fizeram no Conservatório em 1940".

Esta sindicância "revela a face mais mesquinha e hipócrita da época salazarista", caracterizou.

Outro episódio relatado na biografia é o do despedimento de Freitas Branco em 1951 da Emissora Nacional, por ter comparecido na rádio com uma gravata avermelhada, no dia a seguir à morte do Presidente da República, Óscar Carmona.

"Por esta simples razão, o então presidente da Emissora Nacional, António d`Eça de Queirós, pôs fim a uma colaboração de cerca de 15 anos", lembrou, adiantando que a vida de Freitas Branco (1890- 1955) foi dificultada por "polémicas, invejas, mesquinharias, reflexo de um meio cultural pequeno e tacanho".

Área "particularmente rica e aliciante" deste livro, realçou, é a iconográfica, "que inclui, pela primeira vez, fotografias das três mulheres mais importantes da vida" do compositor.

Foram elas Estela Ávila de Sousa, com quem se casou em 1912, Maria Clara Daumbert Filgueiras de quem teve em 1922 o seu único filho, João de Freitas Branco, e Maria Helena de Freitas, com quem viveu os últimos 14 anos da sua vida.

Da sua biografia, esta pesquisa dá a conhecer que o compositor era descendente de D. João II e que entre os seus antepassados se incluem Frutuoso de Góis (meio-irmão de Damião de Góis), o diplomata da Restauração António de Sousa de Macedo, o Marquês de Pombal e o Duque de Saldanha.

"Foi sempre um monárquico e fiel à Casa de Bragança, apesar de ter evoluído no sentido dos ideais de esquerda e de considerar que a monarquia se tornara `inviável`", referiu Delgado.

O músico venceu em 1909 um Concurso de Composição promovido pela Sociedade de Música de Câmara. A sua primeira "Sonata para violino e piano" chamou à atenção do júri, que integrava o pianista Viana da Mota e lhe atribuiu o 1.º prémio "com distinção".

Este êxito "despertou invejas" e Rui Coelho, outro compositor da época, acusou Luís de Freitas Branco de "plágio musical", afirmando publicamente: "Freitas Branco é um tolo mascarado de compositor".

A repercussão que o caso do "plagiato" teve na imprensa em 1911, segundo Delgado, "atingiu níveis hoje difíceis de imaginar, um lamaçal que deixou horrorizada a elite intelectual e artística. Não se tratou dum choque de gerações, mas sim dum choque de mentalidades".

Estes e outros episódios são referenciados ao longo do livro que se divide em duas partes: a biografia e a análise exaustiva da obra, repartindo-se esta por dois períodos, de 1904 a 1923 e de 1924 a 1955.

Na análise da obra estão criadas entradas para todas as obras do compositor.

"A ideia que presidiu a essas duas partes do livro - esclareceu o autor - foi reunir toda a informação possível e relevante acerca de cada obra, com abundantes referências e citações de textos existentes e dispersos, a listagem das execuções, a transcrição das críticas e a indicação de todas as gravações existentes".

Para a realização deste trabalho teve particular importância o acesso ao espólio de Nuno Barreiros, segundo marido de Maria Helena de Freitas, que "foi um apaixonado pela obra de Freitas Branco e que ao longo da vida realizou cópias de tudo o que encontrou que tivesse a ver com o compositor, incluindo a quase totalidade das partituras (que, antes da era das fotocópias, copiava à mão), centenas de programas de concertos e um conjunto impressionante de documentos".

Na área das partituras Alexandre Delgado não deixou de lamentar o facto "de muitos originais não estarem localizados".

"Freitas Branco é uma personalidade fascinante e um compositor multifacetado que protagonizou em muitos casos a vanguarda musical, até a nível internacional", salientou.

Introdutor do modernismo na música portuguesa, sobretudo a partir do poema sinfónico "Paraísos Artificiais" (1910), Freitas Branco "cultivou os mais diversos estilos, revelando diferentes personalidades, fenómeno de certo modo comparável aos heterónimos de Fernando Pessoa", acrescentou.

Entre as obras mais vanguardistas de Luís Freitas Branco, o autor destacou os "Dois poemas de Mallarmé" para canto e piano (1913) e o poema sinfónico "Vathek" (1914).

Ainda segundo Delgado, "um dos aspectos desconcertantes do compositor é o facto de ter pontualmente aceitado escrever música para o regime de Salazar, que tanto desprezava. O caso mais paradigmático é a Abertura Solene `1640`, destinada às comemorações de 1940. Mas o mesmo compositor escreveu canções revolucionárias de conteúdo claramente subversivo, próximas das "canções heróicas" de Fernando Lopes-Graça".

"Outro paradoxo - referiu - é o interesse pela música religiosa por parte de alguém que não se revia na igreja católica.

Contudo, no mesmo ano em que escrevia a cantata bíblica Noemi (1937), Freitas Branco compunha o primeiro soneto dessa proclamação da `morte de Deus` que é o ciclo `A Ideia`, inspirado em Antero de Quental. Era um espírito livre e aberto, impossível de catalogar".

Destacou, por outro lado, a qualidade de "notável musicólogo", a quem se deve a descoberta da música de António Teixeira para as "Guerras de alecrim e manjerona", de António José da Silva (O Judeu), bem como "a redescoberta e a valorização dos polifonistas dos séculos XVI e XVII".

Outro facto inédito trazido a lume nesta obra é que o compositor, "um dos grandes vultos da música do século XX", passou dificuldades financeiras na sua última década de vida, em virtude de ter sido demitido de todos os cargos oficiais pelo Estado Novo.

Alexandre Delgado, 41 anos, organizou em 2005 o Festival Luís de Freitas Branco, em que se deu a primeira audição praticamente integral da obra do compositor. "A sinfonia em Portugal" e "A culpa é do maestro", são dois outros livros de sua autoria.

Compositor e violetista, foi aluno de Joly Braga Santos e diplomou-se em 1990 com o 1.º prémio de composição do Conservatório de Nice. Desde 1996 é autor do programa radiofónico "A propósito da Música" (RDP Antena 2).

Ana Telles, 34 anos, termina actualmente uma tese de doutoramento sobre a vida e a obra para piano de Freitas Branco.

Estudou na Escola Superior de Música de Lisboa, na Manhattan School of Music, na New York University (EUA) e na Universidade da Sorbonne (Paris).

Como pianista, toca frequentemente a solo, com orquestra ou integrada em grupos de música de câmara, e consagra-se particularmente à música dos séculos XX e XXI.

Nuno Bettencourt Mendes, 43 anos, é formado em música e musicologia. Tem experiência artística em canto e direcção coral e exerceu actividade pedagógica em História da Música, Análise, Formação Musical, Acústica e Coro no Ensino Especializado da Música.


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