Editora reconhece uso de IA no romance de Thélyson Orélien e rompe com escritor
A editora canadiana Les Éditions du Boréal reconheceu hoje que o escritor haitiano-canadiano Thélyson Orélien usou inteligência artificial (IA) no romance "C`était ça ou mourir" e anunciou o corte da relação profissional com o autor.
A editora anunciou, num comunicado, que "novos elementos, confirmados nos últimos dias", indicam que a IA foi usada durante a elaboração do livro, apesar de Orélien ter garantido "em várias ocasiões" que nunca a tinha empregado para criar a obra.
A Boréal disse ainda que, perante as acusações feitas ao escritor desde setembro, reuniu todas as versões de trabalho do seu o romance e pediu uma análise externa aprofundada. Os resultados, recebidos esta semana, detetaram "vestígios de marcadores de IA nos metadados de alguns documentos", garantiu a Boréal.
A editora reconheceu ainda que não sabe até que ponto a tecnologia foi utilizada --- e que provavelmente nunca será possível determinar esse dado de forma definitiva ---, mas afirmou que o fator determinante para a sua decisão foi a quebra de confiança no escritor.
"Depositámos a nossa confiança em Thélyson Orélien, que nos assegurava nunca ter recorrido à IA. Essa afirmação foi hoje desmentida", declarou a editora, acrescentando que, nestas circunstâncias, não é possível manter a relação profissional com o autor.
A editora disse igualmente que não fará novas impressões de "C`était ça ou mourir" ("Era isso ou morrer"), nem publicará futuras obras de Orélien.
A decisão representa uma mudança radical em relação à posição anterior da Boréal, em que a editora optara por manter o romance à venda, por considerar que não existiam provas irrefutáveis do uso de IA, embora não encarasse as alegações "de ânimo leve" e admitisse que as revelações sobre casos anteriores de plágio lançassem dúvidas sobre o percurso de Orélien.
A polémica teve início em setembro, depois de a conta anónima "Balance ton Claude", no X, ter indicado que vários excertos do romance poderiam ter sido gerados por IA.
"C`était ça ou mourir", que obteve sucesso comercial em França e no Canadá, figurava entre as dezasseis obras selecionadas para o Prémio Goncourt, até que, em 25 de setembro, a Academia Goncourt retirou o livro da lista de candidatos, por considerar que, "muito provavelmente", era "em grande medida produto de uma inteligência artificial".
Em 13 de outubro, Orélien respondeu publicamente às acusações através de uma extensa declaração, divulgada pela editora Boréal, na qual classificou como "calúnia e heresia" a afirmação de que o seu romance teria sido escrito por IA.
O escritor disse então que nenhuma frase, nem a estrutura ou o sentido da obra tinham sido criados por uma máquina.
Orélien admitiu, contudo, episódios anteriores de plágio, atribuindo-os à sua juventude e inexperiência, e pediu desculpas "sem reservas".
A controvérsia, porém, agravou-se esta semana, depois de o jornal canadiano Le Devoir ter revelado um caso mais recente: um artigo publicado em 2023 na ErraMagazine --- plataforma criada por Orélien --- que apresentava semelhanças substanciais com outra que o próprio jornal tinha realizado, dias antes, em Tapachula, no México. As semelhanças incluíam fontes, estatísticas, estrutura narrativa e até pormenores observados localmente.
Esta descoberta pôs em causa a explicação do escritor de que os seus plágios se limitavam a "erros de juventude".
O Le Devoir apontou ainda que o coautor do texto na ErraMagazine, Alejandro Soto Torres, "não tem qualquer outra publicação identificável" e a sua fotografia sugere ter sido "gerada ou retocada por IA", segundo a investigação do jornal.
Thélyson Orélien, nascido em Gonaïves, no Haiti, em 1988, e residente em Otava, disse ter começado a escrever "C`était ça ou mourir" em 2017 e que, em 2019, tinha um primeiro esboço com mais de trezentas páginas.
O romance acompanha Jonas Dorléon, um professor haitiano que foge da violência dos gangues e atravessa 12 países até se exilar no Canadá.