Eduardo Gageiro publica "Silêncios", o mais intimista dos seus livros
Lisboa, 05 Nov (Lusa) - Uma selecção inédita de duas centenas de fotografias captadas por Eduardo Gageiro nos últimos cinquenta anos foi reunida no seu livro mais intimista de sempre, "Silêncios", que será lançado quinta-feira na Mãe d`Água, em Lisboa.
"Os outros livros reflectiam os sentimentos das pessoas retratadas - sentimentos é o que eu gosto realmente de transmitir, seja alegria ou tristeza - mas este foi feito num período em que me sentia muito debilitado", explicou hoje o fotógrafo em entrevista à Agência Lusa.
Eduardo Gageiro, 73 anos, uma das grandes referências do fotojornalismo em Portugal, galardoado com mais de trezentos prémios, pretendia iniciar em 2007 um grande projecto sobre campos de refugiados quando foi confrontado com a doença.
"Apresentei o projecto a António Guterres (Alto Comissário para os Refugiados) e estava entusiasmadíssimo. Devia avançar em Maio, mas apareceram-me uns caroços no pescoço e fui ao Instituto Português de Oncologia (IPO). Tive que parar tudo para ser tratado", explicou.
A situação difícil provocou-lhe "tristeza e frustração" por ser obrigado a desistir do projecto, mas rapidamente se dedicou a outra ideia: "Fazer um livro mais intimista que reflectisse o meu estado de espírito e, ao mesmo tempo, usar muitas fotografias tiradas ao longo dos anos e que estavam dentro do tema."
Imagens captadas um pouco por todo o mundo, na natureza, crianças, pessoas que se destacam sozinhas na paisagem urbana - entre elas uma de Salazar inédita - revelam momentos de introversão ou isolamento com que Eduardo Gageiro se identificou num momento difícil da vida.
O fotógrafo convidou a escritora Lídia Jorge a escrever especialmente um conjunto de textos para "Silêncios".
Cerca de 70 das fotografias que aparecem no livro estarão em exposição no Reservatório da Mãe d`Água das Amoreiras a partir de quinta-feira, quando for lançada a obra, pelas 19:00.
Gageiro não abandonou o projecto sobre os campos de refugiados: "Se tiver saúde ainda penso fazê-lo. Gostaria de dar o meu contributo para uma situação que eu considero criminosa", critica.
Durante toda a carreira - trabalhou como fotojornalista, entre outros, no "Diário de Notícias", "O Século Ilustrado", revista "Sábado" - Eduardo Gageiro interessou-se pelo drama humano.
Marcaram-no, por exemplo, as expressões dos antigos operários a pedir esmola em frente à conhecida Fábrica de Loiça de Sacavém, onde nasceu. E foram as expressões das pessoas, espelho de sentimentos vários, que quis captar com a máquina fotográfica, optando pelas imagens a preto e branco.
"Como repórter de imagem, durante 51 anos, e também nos meus livros, procurei sempre chamar a atenção para situações injustas. A riqueza continua a ser muito mal distribuída, e Portugal não é excepção. Isso entristece-me muito", disse, confessando ter perdido a esperança que ganhou com o 25 de Abril.
Eduardo Gageiro fotografou momentos históricos da Revolução dos Cravos, em Lisboa: "Soube do que estava a acontecer às seis da manhã desse dia. Fui avisado e avancei", recorda, sublinhando o encontro com o capitão Salgueiro Maia, que "com risco de vida" o autorizou a segui-lo por todo o lado.
"O 25 de Abril foi uma esperança. Foi o dia mais feliz da minha vida. Senti que as pessoas iriam ter uma vida melhor, falar livremente. Mas 34 anos depois continuo triste porque aquele dia magnífico foi uma esperança que não se concretizou. Muitas pessoas continuam a viver mesmo muito mal. Vejo isso em Sacavém. Outros enriquecem e vivem no luxo. Deixou de haver vergonha", lamenta.
Sobre a fotografia na actualidade, considera que "o fotojornalismo é o melhor que se faz em Portugal. A fotografia conceptual é desconhecida lá fora, excepto o trabalho do Paulo Nozolino".
Para a edição do livro "Silêncios" e a exposição no reservatório da Mãe d´Água das Amoreiras, o fotógrafo teve o apoio da EPAL - Empresa Portuguesa das Águas Livres.
AG.
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