Escola de samba inova ao mostrar pormenores do desfile no Carnaval no Rio de Janeiro

A Unidos da Tijuca, uma das aspirantes ao título de melhor escola de samba do Carnaval no Rio de Janeiro, decidiu acabar com o sigilo que tradicionalmente envolve as apresentações e mostrou hoje os pormenores do desfile.

Lusa /

Num ato insólito para o carnaval carioca, a direção da Unidos da Tijuca abriu as portas da sede na Cidade do Samba para apresentar à imprensa, quatro dias antes do início dos desfiles, o tema que vai levar ao sambódromo e os detalhes dos trajes e carros alegóricos.

Esta abertura contrasta com o secretismo com que as outras escolas de samba tentam esconder as apresentações que estão a preparar para o Carnaval deste ano, supostamente para não serem copiadas ou para tentar surpreender as 72.500 pessoas que irão ao sambódromo em cada uma das noites dos desfiles.

"Mesmo contando tudo e mostrando tudo, haverá surpresas", disse Fran Sergio, um dos foliões com maior número de títulos do carnaval carioca, recusando ainda que a transparência possa comprometer o espetáculo.

A divulgação antecipada de todas as informações foi uma ideia do presidente da escola, Fernando Horta, que queria inovar e acabar com a tradição de manter tudo em segredo, explicou à agência noticiosa espanhola EFE a designer e cenógrafa Annik Salmon, uma das quatro integrantes da Comissão do Carnaval da Unidos da Tijuca.

"Ao contrário de outras escolas, pensamos que se o público tiver acesso antecipado a todas as informações sobre o desfile, poderá entendê-lo melhor e divertir-se mais", afirmou o aluno Paulo Barroso.

O desfile das 14 escolas de samba do chamado Grupo Especial, uma espécie de primeira divisão dessas organizações, é a principal atração do carnaval do Rio, considerado o maior espetáculo ao ar livre do mundo.

Cada uma dessas escolas tem um período máximo de 80 minutos para apresentar o desfile, ao longo dos 550 metros da pista do sambódromo, onde devem encenar o tema do samba composto especialmente para a ocasião.

O desfile da Unidos da Tijuca terá quatro mil pessoas, incluindo músicos, dançarinos e personagens apresentados em carros alegóricos, e vai incidir, este ano, sobre as relações do pão com a religiosidade, revoluções e justiça social.

O desfile é sobre o pão, a sua história e a relação com diferentes civilizações, mas com uma abordagem religiosa e social, que se converte num claro protesto contra a fome e a injustiça. O título do desfile é: "Cada macaco no seu galho: Ó, meu pai, me dê o pão para que eu não morra de fome!".

Vários dos carros alegóricos e disfarces vão referir-se ao papel do pão na Revolução Francesa, na Revolta da Farinha na Ilha da Madeira ou à rebelião de trabalhadores russos, explicou o designer gráfico Marcus Paulo, outro dos membros da comissão do carnaval.

A carruagem mais emblemática, batizada de "Comendo o pão que o diabo amassou", vai representar um dos "navios negreiros" que transportou milhões de escravos entre África e o Brasil e a importância que a comida teve no processo de libertação.

A última parte do desfile, numa crítica social aquele que é um dos países com mais desigualdades do mundo, vai apresentar a falta de pão, fome e miséria como resultado da ação dos "poderosos que se vestem como anjos, mas agem como demónios".

Essa mensagem foi o que permitiu que a apresentação quebrasse outra tradição no Carnaval carioca, a de ter a aprovação prévia da Igreja, apesar do uso de símbolos religiosos.

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