Escritora Aline Cardoso descobriu "outros Brasis" ao publicar quem não tinha voz
A escritora brasileira Aline Cardoso descobriu e divulgou "outros Brasis" ao publicar vozes historicamente silenciadas, sobretudo mulheres negras, nordestinas e afro indígenas, afastadas dos projetos editoriais para não saírem dos seus lugares de subservientes.
Aline participa hoje no XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorre até sábado na capital cabo-verdiana, levando aos participantes a sua história no mundo editorial. Autora de seis livros, Aline Cardoso tem 35 anos e nasceu em Paraíba.
No âmbito da sua investigação em literatura e língua portuguesa, teve conhecimento da pesquisa de Regina Dalcastagnè, segundo a qual a maioria dos livros publicados por grandes editoras brasileiras foi escrita por autores brancos, sobretudo sudestinos, homens hétero-brancos.
"As pessoas negras nessas narrativas, quando apareciam, eram a partir de visões e perspetivas muito estereotipadas, racialmente falando, ocupando lugares subalternos, marginalizados, o que cria uma narrativa do outro sobre quem nós somos, o que é bastante perigoso", disse à agência Lusa.
E prosseguiu: "Quando a gente entende que mulheres negras nordestinas, afro-indígenas de outras origens, nas suas pluralidades de vivências e perspetivas poéticas, começam a escrever, a gente percebe outros Brasis que não são contados, que não são lidos e que começam a ter espaço de vez e voz, sobretudo a partir de projetos editoriais afirmativos, independentes, porque são projetos poético-políticos e revolucionários que buscam abrir espaço para esse campo na literatura".
Aline acredita que este silenciamento é "deliberado, sobretudo pela branquitude": "Tem um projeto em curso, atualmente também neocolonialista, que busca nos silenciar para que nós não viremos esse grande jogo. Querem-nos manter sempre em lugares de subserviência, com a cabeça abaixada, os olhares apontados para o chão; e a gente ousa olhá-los face a face e reivindicar a voz e o direito à literatura também".
Foi a partir dessa perspetiva que Aline Cardoso criou o projeto Lua Negra, a partir da Editora Triluna, através do qual foram publicadas 24 obras de autores negros plurais do Brasil inteiro, sobretudo mulheres poetas.
Os livros foram publicados com financiamento coletivo, angariado sobretudo através das redes sociais, resultando em "obras diferentes" e fora da "caixinha" para onde as autoras e autores negros são colocados pelos decisores do mercado livreiro.
"Como se a literatura escrita por pessoas negras fosse um género literário. Género literário é poema, é crónica, é romance, é conto. Pessoas negras podem escrever todos esses géneros. Nós somos um grande grupo de pessoas escrevendo e reivindicando o direito à literatura que nos foi negado há tanto tempo", disse.
Aline Cardoso assume a sua preocupação com a situação no seu país, receando o regresso de um Bolsonaro ao poder.
"Como diz Margarida Maria Alves, nossa referência camponesa líder sindical [falecida em 1983], o medo nós temos, mas não usamos", disse, advertindo: "A ditadura não tem momento, não avisa quando vai começar e também não avisa quando vai terminar".
A escritora sublinha a importância da literatura e das artes em geral enquanto promotoras de uma segurança que impede que o crime aconteça muito antes da pessoa chegar lá e cometer o crime.
"A literatura dá outras perspetivas de mundo, outros horizontes, outras possibilidades de vida" e, "quando governos muito extremados assumem o poder, a gente perde direitos e a gente perde democraticamente enquanto nação", afirmou.
Por isso Aline está na luta e ressalva que "há uma diferença entre briga e luta. Uma briga tem hora para acabar, a luta é para a vida inteira".
"Eu sonho com um país que respeita a terra, a biodiversidade, a arte e a cultura, com crianças leitoras, gente fazendo arte e incentivo a pesquisa científica", disse.
Feminista, Aline vê o crescimento de vozes femininas que põem em causa direitos das mulheres adquiridos como parte de um "pacote neofascista contra imigrantes e pessoas negras, pessoas LGBTQ+ e mulheres".
"Querem que a gente recue diante dos direitos que nós conquistámos. As mulheres passaram mais de 2.000 anos silenciadas, agora estamos a falar e eles não estão a gostar de nos ouvir, porque nós denunciamos o feminicídio, denunciamos o machismo", observou.
E sobre essas vozes femininas, explica que "nem todas as mulheres são aliadas": "São mulheres que buscam se adequar e se encaixar em padrões. Na verdade, elas só conseguem hoje falar porque outras mulheres vieram antes e lutaram pelo direito ao voto, pelo direito à vez e à voz".
Autora de seis livros, de prosa e poesia, Aline garante que nas suas obras nunca faltarão os temas "resistência", "sonho" e a "maternagem".
Aline Cardoso participa hoje no painel sobre "A poesia brasileira do século XX e a sua influência para uma identidade lírica específica da língua portuguesa, contribuindo ao mesmo tempo para a consistência e unidade do idioma".
O XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorre até sábado na capital cabo-verdiana, é promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e a Câmara Municipal da Praia.