Especialistas exigem regulação após mais um restauro falhado de obra de arte

Um retrato de Imaculada Conceição, do artista Murillo, é a mais recente obra de arte envolvida em controvérsia após ter sofrido uma restauração falhada. Especialistas em restauro defendem a regulação do setor, para que apenas restauradores profissionais sejam destacados para estes trabalhos.

RTP /
The Guardian

Depois da famosa restauração à obra Ecce homo, surge agora mais uma recuperação fracassada. Desta vez, a polémica é em torno da obra Imaculada Conceição, do artista barroco Bartolomé Esteban Murillo.

Um colecionador de obras de arte particular terá pago 1.200 euros a um restaurador de móveis em Valência, Espanha, para recuperar o retrato de Imaculada Conceição. No entanto, o resultado final não foi o esperado e o rosto da Virgem Maria aparece desfigurado, mesmo após duas tentativas de restauro.

Especialistas espanhóis em manutenção de obras de arte exigem agora um estreitamento na regulação sobre os trabalhos de restauração.

Fernando Carrera, professor da Escola Galega de Conservação e Restauração do Património Cultural, considera que estes trabalhos devem ser desempenhados apenas por restauradores profissionais.

“Eu não acho que este homem, ou estas pessoas, devem ser apelidados de restauradores”, disse Carrera ao jornal The Guardian. “Vamos ser honestos: eles estragam tudo. Eles destroem as coisas”, acrescentou.

O professor espanhol contesta o facto de a lei atual permitir que as pessoas se envolvam em projetos de restauração, mesmo que não possuam as competências necessárias.

“Consegue imaginar uma pessoa ter autorização para operar outras pessoas? Ou alguém ter permissão para vender medicamentos sem uma licença de farmacêutico? Ou alguém que não é arquiteto ser autorizado a construir um prédio?”, questionou Carrera.

Embora o professor considere que os restauradores são “muito menos importantes do que os médicos”, defende a necessidade de regular o setor em favor da história cultural de Espanha. “Vemos este tipo de cosas a acontecer uma e outra vez e no entanto, continuar a acontecer”, lamentou Carrera.

“Paradoxalmente, demonstra o quão importante os restauradores profissionais são”, sublinhou Carrera. “Precisamos de investir no nosso património, mas mesmo antes de falarmos sobre dinheiro, precisamos de garantir que as pessoas que assumem esse tipo de trabalho foram instruídas para isso”, concluiu o professor.

Maria Borja, uma das vice-presidentes da Associação Profissional de Restauradores e Conservadores de Espanha (Acre), acrescenta que acidentes como este “são muito mais comuns do que se imagina, infelizmente”.

“Nós só descobrimos quando as pessoas denunciam à imprensa ou nas redes sociais, mas há inúmeras situações em que os trabalhos são realizados por pessoas que não são qualificadas”, aponta Borja.

O incidente resultou, inevitavelmente, em comparações com a famosa reparação da pintura Ecce Homo, em 2012. O restauro falhado da imagem de Jesus Cristo levado a cabo por Cecilia Giménez, de 81 anos, percorreu o mundo e tornou-se a principal atração da cidade espanhola de Borja, em Saragoça.
Tópicos
PUB