Espólio único de cinco séculos sobre Índia e Portugal aguarda meios para ser estudado
Cerca de 500 caixas com 35.000 documentos e cinco séculos de história das relações entre Índia e Portugal aguardam nas prateleiras do Arquivo Histórico Ultramarino por recursos que permitam tratar este espólio único do período colonial.
A investigadora do Centro de História da Universidade de Lisboa (CH-ULisboa) Ana Canas, que tem assumido funções de direção do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), em Lisboa, disse à agência Lusa que a série documental da Índia, que pode revelar novas perspetivas históricas, permanece por tratar, sendo que, atualmente, existe apenas um "instrumento muito deficiente", uma lista que indica as datas gerais de cada caixa.
"Para um utilizador que esteja à procura de informação sobre o comércio de pérolas num determinado ano, tem de procurar em várias caixas", exemplificou a investigadora.
Segundo Ana Canas, os documentos, que se estendem por cerca de 16 a 17 quilómetros lineares referentes a todas as antigas colónias portuguesas, fazem parte da história de Portugal, da construção de uma memória e identidade dos países com os quais os portugueses se relacionaram.
A documentação existente é datada de "meados do século XVII até 1974-1975" e incluem correspondência oficial, registos alfandegários, mapas estatísticos e relatórios da administração colonial.
Ana Canas mostrou um mapa estatístico referente ao Estado português da Índia para exemplificar o muito que ainda está por decifrar. O documento, datado de 1776, foi elaborado pelo governador e capitão-general D. José Pedro da Câmara e detalha o número de tropas, os vencimentos e o tipo de armamento, como espingardas e munições.
A principal barreira para estes documentos sobre a Índia e a relação que a Coroa portuguesa tinha com este território ainda não estarem trabalhados não é a falta de vontade, mas a complexidade do próprio acervo.
"Exige uma equipa, pelo menos para um determinado número de documentos, mais multidisciplinar e mais ampla", sublinhou Ana Canas.
Para além de historiadores e arquivistas, o projeto necessitaria de especialistas em línguas, dado que muitos documentos não estão apenas em português, mas também em hindi, farsi (persa) e outras línguas regionais.
O acervo da Índia, embora menor do que o do Brasil, o qual demorou cerca de 10 anos a ser trabalhado e contou com o patrocínio de um programa do Estado brasileiro, exige conhecimentos técnicos e linguísticos que o tornam mais complexo e dispendioso.
As mais de 2.000 caixas e cerca de 300 mil documentos, um número bastante superior à documentação proveniente da Índia, que compõem o acervo referente ao Brasil, já estão todos trabalhados e, grande parte, digitalizados, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), de acordo com Ana Canas.
Devido à proximidade que a nação brasileira tem com Portugal, estes documentos foram trabalhados durante dez anos por uma equipa composta por 120 investigadores, que "descreveu a documentação avulso, quase documento a documento", tarefa considerada árdua para a historiadora.
Ana Canas defendeu ainda que "é preciso avançar os recursos, o conhecimento, as técnicas e fazer algumas opções" para colmatar esta lacuna, acrescentando que para a Índia seria necessário um projeto de igual envergadura, possivelmente através de parcerias entre Portugal, a Índia e eventualmente um financiamento europeu.
Enquanto os recursos necessários não chegam, as 500 caixas com cinco séculos de história continuam nas prateleiras do AHU por desvendar, documento a documento, um novo capítulo que permite compreender a presença portuguesa na Índia.