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Estado compra cancioneiro raro do século XVI no âmbito dos 500 anos de Camões

Estado compra cancioneiro raro do século XVI no âmbito dos 500 anos de Camões

O Estado português adquiriu, por cerca de 70 mil euros, um cancioneiro raro do final do século XVI, considerado um "documento único", no âmbito das comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, foi hoje anunciado.

Lusa /

A aquisição foi revelada durante a cerimónia de apresentação do programa das comemorações camonianas para 2026, que teve lugar na Torre do Tombo, em Lisboa, tendo a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, indicado que "no total foram [pagos] cerca de 70 mil euros", por aquele que é "um dos três cancioneiros mais importantes desse período".

O comissário das celebrações, camonista e antigo diretor da Biblioteca da Universidade de Coimbra, José Augusto Bernardes, sublinhou a relevância do manuscrito - que se encontrava na posse de um particular (Telmo Verdelho) -, classificando-o como "um documento único que não é comparável a nenhum outro" e explicando que contém "testemunhos que não se conheciam", como "uma versão diferente de um poema de Camões".

O cancioneiro reúne não apenas textos de Camões, entre os quais versos ainda inéditos, que fazem parte de sonetos, mas também composições de outros autores da época, como Gil Vicente, Sá de Miranda, António Ferreira, Jerónimo Ribeiro e António Prestes, funcionando como uma espécie de antologia manuscrita do século XVI.

Para José Augusto Bernardes, a comparação entre este cancioneiro e outros já conhecidos permitirá "aferir" e "purificar os textos de Camões", abrindo também "perspetivas de investigação" que "ajudam a aperfeiçoar" a imagem do poeta.

"É verdadeiramente um documento precioso e é único nós olharmos para aquela caligrafia que foi desenhada há 500 anos. Sentimos um frémito, sentimos como se o copista que ali grafou aqueles textos há 500 anos estivesse a falar connosco", afirmou.

O comissário destacou que o Estado comprou o cancioneiro e a transcrição, já concluída, que ficará acessível a qualquer investigador ou leitor interessado, presencialmente ou à distância.

O investigador José Camões, "um dos melhores conhecedores das fontes documentais do país, sobretudo do século XVI e XVII" -- nas palavras do comissário -- que fez a apresentação técnica do cancioneiro, destacou a importância da aquisição deste documento pelo Estado, na medida que "é quem tem a possibilidade de o classificar como património literário e cultural, e promover a sua preservação".

"É um valiosíssimo património, que veio de um particular, que dele cuidou muito bem, tendo chegado em perfeito estado de conservação", afirmou, acrescentando que não se sabe a sua proveniência original, mas pensa-se que "pode estar de alguma forma ligado ao Colégio de São Pedro da Universidade de Coimbra, datando de entre 1580 e 1585, logo a seguir à morte de Camões", adiantou.

Questionada sobre se o Estado irá classificar o cancioneiro como património, a ministra da Cultura afirmou que o manuscrito "acabou de chegar" à Torre do Tombo e que agora haverá "um trabalho ainda técnico" a desenvolver, seguindo-se a avaliação das formas "de preservar e de valorizar esta importante aquisição feita pelo Estado português".

Margarida Balseiro Lopes enquadrou a aquisição no objetivo mais amplo das comemorações dos 500 anos do nascimento do poeta, que procuram "aproximar Camões dos portugueses", com especial atenção a "crianças e jovens", considerando que é nessa fase que a relação com o poeta se pode aprofundar "de forma mais precocemente possível".

As comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, que decorrem entre 2024 e 2026, incluem iniciativas em Portugal e no estrangeiro, com o objetivo de projetar a língua portuguesa e promover a redescoberta da obra do poeta, explicou a ministra.

"Sem dúvida nenhuma, o que nós quisemos também com estas celebrações foi de facto aproximar Camões dos portugueses, mas com uma grande preocupação (...) de crianças e jovens, porque é nessa altura que a relação com o poeta se pode, de facto, aprofundar de forma mais precocemente possível", afirmou.

Até ao momento, das cerca de 188 iniciativas previstas, 110 já foram realizadas, representando uma taxa de execução de cerca de 70%, indicou, destacando a preocupação em desenvolver atividades "dentro do território nacional, do interior ao litoral, do continente às regiões autónomas, mas também de ir além do país", lembrando que já se registaram eventos em 22 países e cinco continentes.

Margarida Balseiro Lopes sublinhou que a dimensão internacional das comemorações pretende projetar a língua portuguesa no mundo, com continuidade mesmo após o término oficial das celebrações em junho de 2026.

"Um exemplo que mostra essa continuidade é que, apesar das comemorações terminarem em junho, em outubro vamos ter uma grande exposição na Biblioteca Nacional de Espanha precisamente para, enfim, invocar também o poeta", afirmou.

Apresentando o programa das comemorações para este ano, o comissário salientou que o objetivo central é "assumir Camões como pretexto de pensamento e possibilidade de dar testemunho do nosso tempo e construir tempos novos".

Uma das vertentes das comemorações centra-se na sensibilização de alunos e professores, que "têm dificuldade em ultrapassar a rotina e a formação", para mostrar que "Camões é mais do que o que é ensinado na escola".

Para tal, é necessário "contagiar" e fazer passar o entusiasmo através de ações de formação a decorrer pelo país todo (serão dez localidades abrangidas este ano), naquilo a que se chamou "Um dia para Camões".

Quanto a exposições, além da que terá lugar em Espanha, "Camões, Vida, Obra y Pervivencia em la Cultura Hispânica", está prevista uma outra grande na Biblioteca Nacional de Portugal, com curadoria da professora universitária Vanda Anastácio, e outras mais pequenas promovidas pelo país.

No que diz respeito a espetáculos, além de uma peça de teatro, vai ser estreada uma ópera e, na vertente da investigação, serão promovidos congressos, colóquios e ciclos de conferências, que abram caminho para novos trabalhos de pesquisa.

Outro aspeto central da programação é o das "edições anotadas de obras", que, na altura, foram feitas de acordo com as perguntas que as épocas colocavam aos textos, sendo a preocupação atual a de "perscrutar dúvidas que o leitor moderno possa colocar", afirmou José Augusto Bernardes, adiantando que "estão 15 pessoas a trabalhar" nas anotações das obras.

Para Margarida Balseiro Lopes, importa "construir uma relação duradoura entre a sociedade e a obra de Camões, colocar a obra em diálogo com o nosso tempo".

Estas edições vão permitir que diferentes leitores "possam aceder a Camões com mais clareza, compreensão e autonomia. Anotar Camões não é significá-lo, é criar instrumentos que permitam compreender melhor a linguagem, o contexto e a densidade da sua escrita, e atualizar Camões, no sentido mais exigente do termo, mantendo a complexidade do texto, mas criando uma mediação rigorosa e acessível que permita a todos os leitores aproximarem-se da obra camoniana", afirmou.

A criação de um portal -- "Camões Digital" -- e a instituição de prémios que distingam "boas práticas relacionadas com Camões", de forma a "fazer chegar mais longe o bom trabalho produzido", são outras das iniciativas previstas.

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