Exposição em Madrid recorda um tecido esquecido
Um tecido praticamente desconhecido, fabricado com fibras de ananás e que no século XVII se tornou num dos tesouros mais apreciados na Europa, é o tema central de uma exposição patente desde esta semana na capital espanhola.
A história remonta a 1565 quando chegou às Filipinas o primeiro galeão espanhol procedente de Acapulco.
A bordo a preciosa prata mexicana, novas especiarias desconhecidas na Europa e uma fruta, também nunca vista, "criada para as mãos de Vénus e para a luxúria dos deuses": o ananás.
Com uma tradição têxtil que remonta a 200 a.c., artesãos filipinos cedo se aperceberam das possibilidades de utilização do fruto, hoje conhecido como uma excelente fonte de vitamina C, e pelas suas propriedades anti- inflamatórias, aplicação no tratamento de lesões e de doenças cardíacas, indigestão, congestão nasal e outras enfermidades.
Um grupo de artesãos usou as "escamas" do fruto e com elas elaborou um tecido que rapidamente se converteu num tesouro ainda mais apreciado na Europa que o ouro ou a prata, uma jóia para os mais importantes da elite europeia, e um presente único para os estrangeiros nas Filipinas.
Viajantes e cientistas da época, cujas obras são citadas na exposição de Madrid, aludem ao tecido, que além dos seus atractivos surgiu como um dos primeiros elementos de intercâmbio cultural e económico entre três continentes:
Europa, América e Ásia.
Incluída na 7ª edição do programa "Madrid vive a Moda", que coincide com a Semana Internacional de Moda de Madrid, a exposição retrata tanto o processo único de fabrico do tecido, como elementos do período, nomeadamente da vida colonial nas Filipinas.
A mostra inclui inúmeras peças fabricadas com o ananás, a maioria da colecção do Museu de Antropologia, entre as quais vestidos, xailes e panos que marcaram parte da moda do período e se evidenciaram em grandes festas da época.
Além de demonstrar o processo de fabrico artesanal, com teares preparados especialmente, a exposição detalha a aplicação do tecido desde o seu início no século XVI até à modernidade.
Vários desenhadores espanhóis e filipinos foram desafiados a usar o tecido para preparem obras únicas para a mostra, recorrendo a tecido fabricado na pequena aldeia piscatória filipina de Palawan.
Com o apoio da Fundação El Nido, artesãos dessa região filipina foram apoiados a recuperar o fabrico, um processo lento que avança apenas um centímetro e meio por dia.
A exposição estará patente até 03 de Outubro no Centro Cultural Casa de Vacas do Parque do Bom Retiro em Madrid.