Exposição que representou Portugal na Bienal de Veneza em 2025 chega ao MAC/CCB
A exposição "Paraíso, hoje.", que representou Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2025, abre hoje ao público no MAC/CCB, em Lisboa, propondo uma reflexão crítica sobre a transformação da paisagem portuguesa e a responsabilidade da arquitetura.
Patente ao público até 03 de janeiro de 2027, a exposição reúne uma seleção de conteúdos do projeto apresentado em Veneza, entre maio e novembro do ano passado, que explora as relações entre arquitetura, natureza e território, recorrendo a instalações digitais, inteligência artificial, imagens e som.
A arquiteta Paula Melâneo, uma das curadoras, explicou hoje, durante uma visita à imprensa, que o projeto nasceu como "resposta direta" ao repto lançado pelo curador da Bienal, Carlo Ratti: "Intelligens. Natural. Artificial. Collective".
"Tínhamos de convocar todo o tipo de inteligência para responder a um mundo em chamas. E a ideia era mesmo a de enfrentar um mundo em chamas", marcado pelas "guerras, a crise da habitação, as alterações climáticas. Tínhamos de ver o planeta de maneira otimista e transmitir uma ideia positiva de viver em democracia", afirmou.
Foi isso que a equipa procurou fazer e transmitir, partindo da ideia de que, apesar das crises contemporâneas, ainda existe um património natural e coletivo que importa preservar e transformar de forma responsável.
Além de Paula Melâneo, a exposição contou com a curadoria dos arquitetos Pedro Bandeira e Luca Martinucci, e curadoria-adjunta da arquiteta paisagista Catarina Raposo e do videoartista Nuno Cera, organizando-se em dois núcleos: uma instalação imersiva e interativa e um atlas de imagens e textos.
A instalação parte de vídeos de paisagens portuguesas, como o oceano, os montados de sobreiro, as dunas e as florestas, captados por Nuno Cera e manipulados digitalmente, com recurso a inteligência artificial, pelo 18---25 Research Studio, acompanhados por uma composição sonora do músico Jorge Queijo.
A iluminação reage à presença dos visitantes, diminuindo de intensidade quando entram no espaço e aumentando quando saem, e as imagens de paisagens nos ecrãs dos grandes suportes digitais -- dispostos em circunferência, no interior da qual o público circula -- alteram-se e mudam, tal como o ambiente sonoro, por efeito da presença e dos movimentos das pessoas.
Segundo o arquiteto Pedro Bandeira, este dispositivo funciona como uma metáfora do Antropoceno, termo referente à época geológica atual, marcada pelo impacto da atividade humana no planeta.
"A nossa presença altera o território em que vivemos, para o mal e para o bem", afirmou o curador, explicando assim a relação entre a interação do público com a instalação e a transformação da paisagem pela ação humana.
Para Pedro Bandeira, a ideia de paraíso está associada à esperança de preservar aquilo que ainda existe, apesar das ameaças que se colocam ao planeta.
A arquiteta paisagista Catarina Raposo destacou, por sua vez, a intenção de contrariar a ideia de que o paraíso corresponde a uma natureza intocada, defendendo antes uma paisagem construída coletivamente, através de múltiplas intervenções humanas, muitas vezes anónimas e não associadas a uma autoria individual.
"Nós quisemos que o paraíso fosse algo que se consegue através da ação humana sobre a natureza, porque também somos natureza", explicou.
O segundo núcleo é constituído por um atlas com cerca de 700 imagens, incluindo 36 selecionadas através de uma convocatória pública que desafiou os participantes a enviarem postais com imagens de lugares, obras ou projetos associados à sua ideia de paraíso.
O atlas, que integra ainda textos críticos e entrevistas a arquitetos paisagistas, propõe uma análise das transformações do território português, desde as infraestruturas e a transição energética até à intervenção arquitetónica na paisagem.
Segundo a equipa curatorial, a imagem de Portugal como um "jardim à beira-mar plantado" esconde problemas como a urbanização descontrolada, a especulação imobiliária e a pressão turística sobre o litoral, assim como o despovoamento, o abandono agrícola e a exploração industrial do interior.
"De forma consciente ou não, a arquitetura tem sido cúmplice de muitos desses processos, ora de modo acrítico, ora comprometida com uma visão mais responsável e sustentável", consideram os curadores no texto de apresentação do projeto.
A exposição procura, assim, questionar não apenas as consequências da intervenção humana na paisagem, mas também o papel que a arquitetura pode desempenhar na construção de um território mais sustentável.
O arquiteto Luca Martinucci destacou a dimensão emocional da instalação, relatando reações dos visitantes em Veneza, alguns dos quais se mostraram surpreendidos com a interação entre os seus movimentos, as imagens e o som, outros saíram "quase a chorar", evocando uma experiência de emoção como a normalmente sentida no cinema ou no teatro.
"Uma exposição de arquitetura não é suposto tocar teclas emotivas e por isso, para nós, é um resultado muito apurado: podemos falar de arquitetura e levar ao discurso de arquitetura outro tipo de emoções, que não só a linguagem técnica. É aberto a todo o publico", acrescentou.
Segundo o curador, enquanto a instalação proporciona uma experiência sensorial e emocional, necessariamente efémera, o atlas funciona como um documento duradouro, que permite aprofundar a reflexão sobre os temas abordados e revisitar o projeto para além do espaço expositivo.
É também com esse objetivo que será lançado hoje um disco em vinil com a paisagem sonora criada por Jorge Queijo, acompanhado por uma seleção de imagens da instalação, numa tentativa de preservar a memória de uma experiência física que, segundo Luca Martinucci, é impossível de reproduzir integralmente.
Comissariada pela Direção-Geral das Artes, a exposição tem inauguração hoje, às 19:00, com entrada gratuita, seguindo-se, às 20:00, uma performance de Jorge Queijo e o lançamento do disco.
A programação inclui ainda conversas, visitas guiadas e oficinas, durante os meses de novembro e dezembro.